CAPÍTULO II.

OS DIRIGENTES DO SU-QI EM SUA COLABORAÇÃO COM O META-MARXISMO

FRANCO-GRAMSCIANO DE ACTUEL MARX 

 

Texto de Autoria de

Portau Schmidt von Köln

Emil Asturig von München

 

A Enfermidade Gramsciana

no Movimento Trotskysta Contemporâneo

e nas Lutas de Emancipação do Proletariado

Polêmica Trotsky e Gramsci  : Gramsci e Trotsky  

O SU-QI e a Corrente Franco-Gramsciana

de Atualização, Correção

e Superação do Marxismo

(O Meta-Marxismo de Actuel Marx)

 

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http://www.scientific-socialism.de/SUCapa.htm 

 

 

As bases do colaboracionismo da direção do SU-QI com o meta-marxismo franco-gramsciano de Actuel Marx encontra suas raízes histórico-originais mais profundas nos idos dos últimos dos anos da década de 80.

Com efeito, no quadro do XII Congresso Mundial do Secretariado Unificado da Quarta Internacional, celebrado em 1985, resultou, definitivamente, confirmada uma nova interpretação, essencialmente revisionista, formulada pelos principais dirigentes e intelectuais do SU-QI, acerca da caracterização de León Trotsky, contida nas linhas finais da abertura do Programa de Transição para a Revolução Socialista, de que a crise histórica da humanidade se reduz à (no original russo : svoditsia k) crise da direção revolucionária.[1]

 

 

Nos documentos do XII Congresso Mundial do Secretariado Unificado da Quarta Internacional estabeleceu-se que tal caracterização fundamental de León Trotsky já não poderia ser colocada da mesma forma como o foi, no curso dos anos 30.

Conceda-se aqui, pois, a palavra ao fundador da Ligue Communiste Révolutionnaire (LCR), e mais consagrado intelectual do Secretariado Unificado Internacional da Quarta Internacional (SU-QI) da atualidade, Daniel Bensaïd - a quem se aludiu no presente trabalho em virtude de seu ”pequeno escorregão” no domínio do conceito marxista-leninista do Estado, a fim de que esclareça ao leitor ele mesmo, com suas próprias palavras, em que medida efetivamente tal caracterização de Trotsky haveria de ser colocada de maneira distinta.

Acerca do tema, Bensaïd escreve da seguinte forma em seu artigo intitulado 60 Anos de IV Internacional, publicado nas colunas da Revista INPREKORR, órgão oficial do SU-QI, em janeiro-fevereiro de 1999 :

 

„A IV Internacional foi construída com base na idéia de que a crise da humanidade se reduziria à crise da direção revolucionária.

Essa idéia era correta, em certo sentido e em um certo contexto(p. 19)...

Uma questão coloca-se, tanto antes como depois e de maneira urgente :

Se a crise da humanidade desde meio-século se reduz à crise da direção, porque não foi possível resolvê-la, apesar de toda a nossa boa vontade ?

Nos documentos de preparação do XII Congresso Mundial de 1985, sublinhou-se que essa questão não pode ser mais colocada da mesma forma, como o foi no curso da década de 30.

Ela não se reduz à uma crise da vanguarda, não se reduz à substituição necessária das direções tradicionais falidas, por um fresco substituto.

Na ordem do dia, está colocada uma reorganização social, sindical, política do movimento dos trabalhadores e de seus aliados, em nível planetário. ...

A IV Internacional pode representar um instrumento útil, sem que ela possa se considerar, futuramente, a alternativa natural para o stalinismo falido e para a social-democracia(p.20)“[2]

            

 

 

Sem saber dizer ao que se reduz a crise da humanidade, nos dias que correm, Daniel Bensaïd declara, peremptoriamente, uma coisa que a direção do SU-QI reputa saber ao certo : „Ela (i.e. a crise da humanidade) não se reduz à uma crise da vanguarda, não se reduz à substituição necessária das direções tradicionais falidas, por um fresco substituto.“

Apesar dessa crassa insuficiência - tal como diria Michaël Löwy em um caso desses – de não se informar o leitor ao que se reduz, então, a crise da humanidade nos dias de hoje -, não há, de maneira alguma, porque esmorecer, pois o preclaro professor sorbonnard, conhecido por seu pequeno escorregão e pelo seu deslocamento de sentidos (glissements de mot, deplacement de sens), assinala, explicitamente : „na ordem do dia, está colocada uma reorganização social, sindical e política do movimento dos trabalhadores e de seus aliados, em nível planetário“ !

De toda sorte, cumpre precisar, literalmente, o que a direção do SU-QI proclamou, solenemente, em seu XII Congresso Mundial do Secretariado Unificado da Quarta Internacional acerca desse tema, a fim de evitar-se novos escorregões de palavras, muito caros ao método teórico-operacional de Daniel Bensaïd :

 

„Enquanto eventos de dimensão internacional permanecerem ausentes, eventos que possam reverter, essencialmente, as relações de forças entre as classes e determinar uma nova conformação geral das forças, a recomposição (no original alemão : Neuzusammensetzung) do movimento internacional dos trabalhadores continuará ainda lenta, desigual e profundamente diferenciada.

Agora, não é nem o momento para uma proclamação abstrata de uma internacional de massas nem para uma tentativa de encurtamento qualquer do caminho nessa direção.

Situamo-nos apenas no início de profundas e duradouras transformações no movimento operário.

Temos de circundá-las, na medida em que combinamos a construção da IV Internacional, tal como ela existe, com a colaboração (no original alemão : Zusammenarbeit) realizada juntamente com as forças de vanguarda, que se encontram em desenvolvimento em diversos países e continentes.“[3]   

 

 

    

Na medida em que, no XII Congresso Mundial do Secretariado Unificado da Quarta Internacional, declarou-se, abertamente, a condição de que, permanecendo ausentes eventos que pudessem reverter as relações de forças entre as classes, determinando uma reconformação de forças entre as classes, a recomposição do movimento internacional dos trabalhadores permaneceria lenta, desigual e profundamente diferenciada - devendo o SU-QI, diante desse cenário, passar a combinar a construção da IV Internacional com a cooperação realizada com as forças de vanguarda, em diversos países e continentes -, sua abertura para o processo de reorganização social, sindical, política do movimento dos trabalhadores e de seus aliados, em nível planetário“, tal como assinala Bensaïd, tornara-se, solenemente, legitimado.

Desde então, o SU-QI contemplando a possibilidade de intervir na recomposição do movimento dos trabalhadores e de seus aliados passou a combinar as tarefas de construção da IV Internacional com as de co-laboração – literalmente em alemão Zusammen-arbeit – com as forças por ele consideradas de vanguarda, em desenvolvimento em diversos países, a saber : trotskystas não sectários e anarquistas, gramscianos, socialistas de esquerda e comunistas desestalinizados, feministas, ecologistas, lutadores do movimento anti-racistas e do movimento sem-terra, organizações não-governamentais (ONGs) que lutam pelos direitos humanos ou pela solidariedade com o Terceiro Mundo.

Desse processo de combinação de construção da IV Internacional com colaboração com as forças de vanguarda, surgiu, da maneira mais relevante e incontrastável, o colaboracionismo do SU-QI com o meta-marxismo franco-gramsciano de Actuel Marx, cuja intensificação culminou, no ano 2000, com a fundação dos Espaces Marx e Espaces Marx Réseau International. Pour Une Construction Citoyenne du Monde.

A crítica teórico-doutrinária, a análise político-prática, o exame estratégico-programático, da ideologia gramsciana surgiu, em verdade, complacentemente recepcionada e crescentemente admitida entre os mais expressivos doutrinadores do Secretariado Unificado da Quarta Internacional (SU-QI), já a partir da inauguração da trajetória do “caminho simétrico” ao Euro-Comunismo, nos anos 70, sendo, a seguir, progressivamente consagrada, de maneira coniventemente crítica, devido ao colaboracionismo “trotskysta-gramsciano”, empreendido pelos principais dirigentes da Ligue Communiste Révolutionnaire (LCR), seção francesa do SU-QI com os expoentes do meta-marxismo franco-gramsciano de Actuel Marx, a partir de 1986.[4][5]

 

  

Esse processo de colaboracionismo “trotskysta-gramsciano” contou, além disso, com o mais efusivo apoio dos mais renomados intelectuais de Bandiera Rossa, seção italiana do SU-QI, aduladores da ideologia gramsciana no quadro do movimento trotskystas e das lutas de emancipação do proletariado, nos dias de hoje.[6]

 

 

O surgimento da corrente doutrinária meta-marxista franco-gramsciana de Actuel Marx é, por sua vez, antes de tudo, um fenomêno originariamente relacionado com a produção teórica de certos intelectuais catedráticos franceses, vinculados, antes de tudo, à Universidade Sorbonne de Paris e ao Conselho Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), advindos do Partido Comunista Francês (PCF).

Portanto, trata-se de um fênomeno intelectual característico de l’ntelligence marxiste académico-sorbonnarde da França de nossos dias. 

Para o fomento e a propagação mundial do meta-marxismo, i.e. da ambição de atualização, correção e, finalmente, superação do marxismo, em sentido franco-gramsciano, criou-se, nesse contexto, a Revista Actuel Marx, em 1986, por iniciativa de Jacques Texier e Jacques Bidet, contando seu Comitê de Redação, desde logo, com os membros Michaël Löwy e Catherine Samary.

Sob a direção de Jacques Texier e Jacques Bidet (literalmente : sous la direction de Jacques Texier et Jacques Bidet), passou a ser editado a coleção de livros Actuel Marx Confrontation, em concurso com a Universidade de Paris X – Nanterre (Sorbonne) e o Istituto Italiano per gli Studi Filosofici.

A estruturação ideológica da corrente em exame, impulsionadora da mais profunda desnaturação do marxismo, sob a máscara de uma interpretação científico-catedrática atualizadora da doutrina de Marx e Engels, respalda-se, historicamente, nas principais publicações de Jacques Texier acerca de Antonio Gramsci, dadas ao público já a partir dos anos 60, intituladas “Antonio Gramsci”, de 1966, “Gramsci,  o Teórico das Super-Estruturas”, de 1968, bem como nos livros de Jacques Bidet, intitulados "Que Fazer do Capital ? Materiais para uma Refundação", de 1985, e "Teoria da Modernidade, Seguida de Marx e o Mercado", de 1990.[7][8]

 

 

Mais recentemente, i.e. em 1998, Jacques Texier publicou sua obra maior de inspiração franco-gramsciana, dotada de largo fôlego, intitulada “Revolução e Democracia em Marx e Engels”, já referida ao longo do presente trabalho.[9]

 

 

No Colóquio Internacional de 17 de maio de 1990, realizado na Universidade de Paris X – Nanterre (Sorbonne), sob a direção de Jacques Texier e Jacques Bidet  e a organização de Actuel Marx e do Istituto Italiano per gli Studi Filosofici, Jacques Bidet proclamou, solene e claramente, os princípios norteadores e as premissas ideológicas de Actuel Marx a serem perseguidos por todos os que pretendessem colaborar com o impulsionamento do meta-marxismo franco-gramscista.

Respondendo acerca da indagação O QUE É O MARXISMO ?, assinalou Jacques Bidet, impudentemente :

 

Mesmo se ele trabalhou no terreno da filosofia e aí produziu coisas novas, notadamente no domínio da antropologia, Marx não criou filosofia. E o marxismo não pode substituir a filosofia :

O que ele produziu foi uma teoria, mais ou menos geral, da história.

Teoria que atravessa linhas filosóficas diferentes que foi, a seguir, encontrada exprimida em línguas filosóficas diversas.

Eu permaneceria aqui no quadro da peça maior dessa enorme empresa, sua concepção de capitalismo.

Eu tentei mostrar que se tratava de uma teoria “parcial” da modernidade.

E, nesse sentido, o marxismo tem, de início, a necessidade, posso dizer, de ser completado.

Quero dizer com isso : inscrevê-lo em um meta-marxismo, no sentido de uma teoria mais larga.

É Marx mesmo que fornece a via dessa superação quando, no início de O Capital, antes de descrever as relações propriamente capitalistas, define as relações mais gerais que caracterizam o mundo moderno, a saber as relações mercantis que são, como ele o diz, os “pressupostos” do capitalismo.

Basta aqui completar a análise.

Essas relações mercantis  supõem, com efeito, um centro, o qual não pode ser vinculado à única lei mercantil da contratualidade individual.

Porque no centro do sistema contratual pode afirmar-se, contratualmente, uma vontade “substancial”, tal como o diz Hegel.

Uma vontade-projeto-concreto, uma vontade-plano.

Tal se apresenta, em sua complexidade, como “o pressuposto” do sistema moderno, na medida em que esse sistema se caracteriza pelo fato de a dominação realizar-se através da forma contratual.

Esse pressuposto apresenta, assim, uma dupla face e constitui o princípio de um duplo sistema de classe.

Eis porque o marxismo deve ser superado pelo meta-marxismo.”[10]       

 

 

 

O professor sorbonnard da Paris X - Nanterre, mestre especializado nos ardis, solércias e contornos da ideologia idealista-subjetivista gramsciana(-crociana), prossegue revelando em seu O QUE É O MARXISMO ?,  como, afinal de contas, é possível e indispensável completar-se e superar-se o marxismo com o meta-marxismo, sobretudo naqueles domínios em que O Capital “fracassou regularmente em suas pretensões dialéticas”.

Conceda-se à palavra ao Monsieur le Professeur Jacques Bidet :

 

“Passando da parte ao todo, obtem-se uma visão dialética do mundo moderno.

Mostrei em um livro precedente, de maneira bastante técnica, que O Capital de Marx fracassou regularmente em suas pretensões dialéticas( Bidet refere-se aqui a seu livro de 1985, intitulado "Que Fazer do Capital ?").

Agora posso dizer o porquê.”[11]

 

 

Profundo suspense entre os seres humanos mortais, pois será revelado o arcano milenar que permite desvendar, à maneira gramsciana, porque, Santa Cleopatra! - para usar-se uma expressão de Roberto Benigni -, O Capital “fracassou regularmente em suas pretensões dialéticas”!  

Monsieur le Professeur Bidet, professor sorbonnard de meta-marxismo e ciências ocultas-gramscianas, novamente com a palavra :

 

“É que O Capital excluía, de conjunto, o universal.

Ele rejeitava, como quimera social-democráta, a universalização pela instância estatal proposta por Hegel, a humanização das relações mercantis.

Ele permanecia agrilhoado ao estudo da sociedade civil (no sentido hegeliano das relações mercantis capitalistas), acerca das quais ele mostrava as contradições insuperáveis, redobradas por um Estado à sua imagem e semelhança.

E ele reenviava a conciliação universal para um mundo ulterior pós-mercantil.

Ora, vimos que esse último, que é ordenado segundo um plano, incorporava um princípio de dominação semelhante.”[12]

 

 

 

Jacques Bidet – e com ele seu inseparável companheiro escudeiro meta-marxista franco-gramsciano Jacques Texier -, situados esses ambos teóricos defensores da „face democrática“ de Marx contra o “marxismo de Lenin e Trotsky”, decididos opositores da planificação integral e centralizada da vida econômico-social, efetuada pela Ditadura Revolucionária do Proletariado, incorporadora da mais ampla e historicamente superior Soberania proletária, na fase de transição ao socialismo, por considerarem essa planificação como hipoteticamente mais fetichisante do que as relações capitalistas de mercado, Bidet e Texier, pregoeiros ambos de uma “representação do socialismo” enquanto sociedade mercantil-humanizada, dotada de uma contratualidade estatal dirigente, ou seja de um Socialismo Mercantil-Humanizado, i.e. não como uma sociedade pós-mercantil deshumana..., informam, então, concludentemente, quais seriam as missões teórico-doutrinárias idealistas-subjetivistas e as tarefas político-práticas classista-colaboracionistas do meta-marxismo franco-gramsciano, realizadas através da “completação, correção, atualização e superação” da doutrina de Marx e Engels:

 

“O meta-marxismo é, portanto, em um sentido, um retorno a Hegel, porém, com toda a carga crítica marxista que destruiu as ilusões hegelianas.

Trata-se de um retôrno a uma construção dialética da modernidade, aquela que mostra como o universal encontra-se à disposição na própria sociedade civil – e não apenas na ameaça que sobre ela pesa.

Trata-se de uma recusa da historicização marxista da dialética.

É a aceitação da modernidade como coexistência da sociedade civil e do Estado, porém com o reconhecimento, devido notadamente à obra crítica de Marx, dos princípios de alienação, de estruturação de classes, que tanto um como outro incorporam.

O meta-marxismo se propõe não apenas a completar o marxismo (de o integrar em um espaço teórico mais vasto), porém também a corrigí-lo.

Ele não é certamente um pós-marxismo, porém, seguramente, uma crítica do marxismo.”[13] 

  

 

 

Deturpando, deformando, desnaturando, corrompendo, sistemática e ostensivamente, o sentido e o significado da doutrina de Marx e Engels, a pretexto de completá-la, corrigí-la, atualizá-la e superá-la, em sentido idealista-subjetivista gramsciano, i.e. no sentido revisionista e parasitário da tradição proletário-revolucionária marxista, essencialmente hostil ao trotskysmo e mais refinadamente adaptada aos preconceitos democrático-burgueses e constitucionais-parlamentares que dominam e oprimem intensamente as massas proletárias dos países capitalistas-imperialistas, bem como, adicionalmente, aquelas dos principais países situados na periferia do processo de remundialização capitalista-imperialista, Jacques Bidet continua a citação em destaque, proclamando, em tom professoral jurídico-político especializado, axiologicamente “neutro”, sem critério de classes, “em si e por si mesmo” democrático, a partir das prominentes cátedras da Sorbonne :

 

„Com efeito, Marx, desde A Questão Judía (1843) renuncia à teoria política. Sua obra inteira está, manifestamente, voltada em direção das perspectivas democráticas.

Ela sofre aqui, contudo, de uma imprecisão inquietante, ou ainda, de um ponto cego.

A crítica marxista do Estado não é apenas aquela do boa constrictor (i.e. da grande jibóia estranguladora).

É a crítica da própria idéia de um laço onde se arbitrem os interesses singulares, onde se realise um acordo jurídico.

Eis porque, de resto, são rejeitadas, todas de conjunto, enquanto pontos de localização última, as categorias da justiça, do Direito e da política.

O comunismo do famoso texto de Marx sobre o Programa de Gotha é uma idéia reguladora para além de tudo isso.

Ele supõe, é verdade, em boa lógica, uma humanidade que teria atingido o lado de lá da raridade.

Não se pode analisar esse comportamento conceitual de outra forma senão como uma desconstrução imaginária da filosofia política clássica, tal como ela se exprime com claridade em Kant.

Esse último distingue a ordem da moral, segundo a qual os homens reconhecem mutuamente, no infinito, sua liberdade e a ordem do Direito, que é aquela da coexistência possível das boas vontades, dos projetos, em um mundo marcado pelo fato de que, ao mesmo tempo em que se estimulam, limitam-se também uns ao outros.

Convém bem reconhecer que Marx não faz senão supor o problema do Direito como resolvido.

O universo último que ele invoca, aquele do „comunismo“, é, com efeito, caracterizado com uma ordem da coexistência das liberdades para além de todo limite, para além dessa raridade dos meios que comportam sempre o perigo da promoção de um interesse contra o outro e a exigência de uma „justa“ repartição dos bens e poderes.

Porém, superando, assim, o Direito não somos reconduzidos à ordem kantiana da moral ?

Tudo se passa como se o pensamento de Marx, que tanto militou pelo estabelecimento da democracia e contribuído para a crítica da opressão política, permanecesse suspenso nesse ponto cego, o que o torna inapto a produzir uma teoria da política.

E isso me parece ter profundamente marcado uma certa cultura comunista indiferente à questão do fundamento e das formas de uma ordem jurídica justa(obs.: Em primeiro lugar e antes de tudo, Bidet – tal como Texier – refere-se aqui ao “marxismo de Lenin e Trotsky”, tal como se pode verificar no presente trabalho a partir da citação desses dois máximos meta-marxistas franco-gramscianos.)[14]

 

 

 

Apresentados ao leitor esses tesouros crítico-reflexivos do meta-marxismo franco-gramsciano de Jacques Bidet e Jacques Texier, cumpre destacar, nesse passo, como esses ambos professores sorbonnards abordam a problemática da “representação do socialismo” enquanto sociedade mercantil-humanizada, dotada de uma contratualidade estatal dirigente, ou seja de um Socialismo Mercantil-Humanizado, i.e. não como uma sociedade pós-mercantil deshumana: rubi egípcio entre os diamantes valiosíssimos da mais desbragada defesa do conciliacionismo de classes, postulada por Actuel Marx, em profícua e enriquecedora colaboração teórico-doutrinária com os expoentes doutrinários do Secretariado Unificado da Quarta Internacional (SU-QI), com especial destaque para Michaël Lowy e Daniel Bensaïd :

   

„Compreender-se-à que é por um mesmo movimento que o meta-marxismo completa e corrige o marxismo, porque é a atenção dedicada ao conceito da contratualidade que, uma vez por todas, insere a teoria do capitalismo no conjunto mais vasto da modernidade e restitui ao elemento político toda a sua consistência.

Chegamos assim à questão do socialismo.

Existe aí ainda, bem entendido, uma escolha de vocabulário que se pode discutir(obs. : Perfeito ! E, para toda boa compreensão desse aspecto léxico-semântico tocado aqui pelo professor sorbonnard Jacques Bidet, à maneira dos Atos dos Apóstolos, remetemos o leitor à instrutiva problemática concernente ao “pequeno escorregão” de Daniel Bensaïd da Ditadura do Proletariado à Democracia Socialista, Cap. I do presente texto).

Porém, como o socialismo não foi jamais realizado em lugar nenhum, o termo socialismo se encontra disponível para designar a sociedade que queremos.

Eu não poderia aqui enunciar senão o princípio de um procedimento.

A fraqueza de Marx está, parece-me, em ter pensado o socialismo como um outro mundo, como um mundo pós-mercantil.

O verdadeiro problema, para a humanidade moderna, parece-me ser o de chegar à realização mais alta de sua liberdade nas condições-limites que são aquelas desse mundo, marcado por aquilo que designei como antinomia da modernidade.

A teoria política do socialismo não tem por objeto desenhar as formas sociais de um mundo totalmente outro, mas sim de enunciar princípios concernentes à realização humana mais alta nas formas incontornáveis, que são aquelas do plano e do mercado.

Pois, é a partir daí que poderão ser pensadas e realizadas as instituições da associação, os espaços de cooperação igualitária e comunitária para além de toda contratualidade, que serão os carros-chefes da nossa humanidade.

A teoria dos princípios renasce atualmente, porém no quadro do pensamento liberal como aquele de Rawls que não afronta a antinomia da modernidade, senão separa entre uma ordem política aparentemente remetida à contratualidade central e uma ordem econômica que se definiria pela lei natural do mercado.

Porém, a teoria dos princípios, longe de estar ligada a essa opção liberal ou social-democráta, tem por terreno legítimo a forma geral antinômica da modernidade que cruza o plano e o mercado sem prioridade de um sobre o outro, nem distribuição natural de tarefas entre um e outro.

Ele tem por objetivo o domínio humano, livre e igual, pela multitude dos homens, sobre suas condições de existência.

A elevação de cada um à liberdade mais alta.

A separação entre reformistas e revolucionários existia entre os que queriam mudar decididamente o mundo e os que se propunham apenas melhorá-lo progressivamente.

Parece-me que a teoria dos princípios é de natureza a renová-la, posto que ela visa a determinar o inaceitável, o intolerável.

Ela suscita constantemente os justos motivos da reivindicação e da revolta e, longe de estar voltada a justificar a todo preço o consenso e a busca do consenso, ensina, ao contrário, a discernir os limites do discurso consensual, a discernir o momento em que o discurso se transforma em exercício de poder através da palavra, em violência discursiva, em princípio de violência, pura e simplesmente...

E existe seguramente continuidade entre a abordagem marxista, fixada sobre a apropriação social dos meios industriais de existencial e a reflexão ecológica, centrada sobre as condições materiais últimas da vida na época moderna.

Não se trata mais apenas da apropriação por alguns do patrimônio produtivo produzido por todos.

Trata-se, doravante – essa questão é, porém, inseparável da precedente – do domínio humano sobre as próprias condições da (re)produção da vida e da sobrevida do espaço humano.

A relação de classes se inscreve na relação ecológica que constitui doravante o horizonte do socialismo.

Vermelho e verde vão juntos adiante.”[15]

 

 

 

Eis o prometido rubi egípcio do meta-marxismo franco-gramsciano !

Com as elocubrações do Monsieur le Professeur Bidet, a doutrina de Marx e Engels já encontra-se servida, com uma sopa de letras ao leitor, devidamente completada e corrigida : em vermelho, nas proposições de Marx e Engels que se demonstravam erradas, em verde, naquelas que se demonstraram aceitáveis em face do “conceito da contratualidade que, uma vez por todas, insere a teoria do capitalismo no conjunto mais vasto da modernidade e restitui ao elemento político toda a sua consistência. Chegamos assim à questão do socialismo.”      

Conforme Bidet, como o socialismo não foi jamais realizado em lugar nenhum – sendo que o venerando mestre meta-marxista não considera como, academicamente, válidos os, aos seus olhos, praticamente insignificantes e historicamente imperceptíveis eventos da Commune de Paris e da Revolução de Outubro como experiências proletárias-revolucionárias de construção efetivamente materiais do socialismo, que instauraram fases transitórias de Ditadura Revolucionária do Proletariado, incorporadora da mais ampla Soberania proletária – o termo socialismo encontra-se disponível, purificado, asseado, limpo, como a virgindade de um cálice sagrado, como a pureza da brancura das neves, para designar a sociedade que ele e seus seguidores aspiram.

Pergunta-se então : que socialismo é esse de que falam os meta-marxistas franco-gramscianos de Actuel Marx, Jacques Bidet e Jacques Texier ?   

Resposta :

Baseando-se na lógica-epistêmica liberal de Immanuel Kant, John Rawls, bem como – convém acrescentar – fundando-se na lógica discursivo-comunicacional de Jürgen Habermas, esse seria o socialismo dos “princípios concernentes à realização humana mais alta nas formas incontornáveis, que são aquelas do plano e do mercado”, “sem prioridade de um sobre o outro, nem distribuição natural de tarefas entre um e outro”, dado que ”a fraqueza de Marx está em ter pensado o socialismo como um outro mundo, como um mundo pós-mercantil.” [16][17][18]

 

 

Acerca dos autênticos fundamentos teóricos do meta-marxismo franco-gramsciano de Actuel Marx, Jacques Bidet assinala, claramente :

 

“É necessário pensar na unidade do mesmo paradigma, porém sem confusão, o sistema social real (com as relações de dominação e os mecanismos de sua reprodução, as tendências e as dinâmicas que o caracterizam), bem como o projeto democrático.  

Diversas obras importantes inscrevem-se, hoje, em um tal imperativo teórico. No primeiro posto hierárquico dessas, eu situaria a magistral Teoria do Agir Comunicacional de Habermas.

Outras são principalmente utilizáveis para uma dessas dimensões, tal como a obra de J. Rawls para as tarefas de um pensamento normativo, e diversos trabalhos produzidos por Marx ou Weber para as tarefas “analíticas” (e críticas)(p. 84). ...

O desenvolvimento efetivo e quotidiano da contratualidade pode ser definido como uma relação “comunicacional”, no sentido pleno que lhe atribui Habermas.

A forma da comunicação, na medida em que ela incorpora, ao mesmo tempo, fins, valores que não são apenas para dividir, porém oferecidos à crítica pública, é a forma mesma da existência do pressuposto, sua posição concreta.

Toda a filosofia política pode ser definida com um esforço para daí desprender as condições. ...

Minha teoria difere daquela de Habermas dado que eu não concebo o mercado e a organização (burocrática) como “meios da mídia”, que configuram a razão instrumental em uma relação de exterioridade relativamente a um terceiro termo, o mundo vivido, porém, tal como me expliquei, como as formas mesmas da razão prática, enquanto razão contratual, e como formas de retôrno a ela... 

É por isso que uma “teoria dos princípios” é, por si, uma coisa necessária :

a forma correta da teoria do contrato social é aquela de uma teoria dos princípios universalizáveis, i.e. sobre os quais se pode fundar uma ordem social legítima.

A teoria do Estado legítimo é, assim, ao mesmo tempo, aquela também da luta legítima contra a injustiça, no sentido da teoria ético-política da revolução.

Decorre da grandeza de Rawls ter retomado a teoria do contrato em termos de um teoria dos princípios, ter concebido esses princípios como aqueles da cooperação social (o que integra a economia ao contrato) e de os ter colocado, de início, princípios da igualdade, sendo a questão da diferença de ordem segunda, destacando que a justiça inclui o momento da eficácia, da efetividade da vontade.

Sua fraqueza deve-se ao imaginar-se que ele constrói aí uma simples utopia, que realizaria de modo coerente os ideais implícitos na nossa cultura.

Na realidade – essa é a minha tese – o discurso moderno da igualdade e da liberdade não trata de opinião, mas de posição.

Posição pública da medida de toda coisa social. ...

Posição “constitucional”, no sentido forte em que a constituição (mesmo quando não tem existência empírica explícita) é instituição(p. 97). ...

O socialismo, vê-lo-ia, assim, definido como a instauração de uma ordem justa nos limites das necessidades modernas da produção, compreendidas como formas de coordenação-apropriação específica da época moderna, mercado, plano e associação – essa última não podendo fornecer por ela mesma uma alternativa(p. 99).”[19] 

 

 

 

Esse socialismo da ordem justa, dos princípios do plano e do mercado, da associação e do contrato, da igualdade e da liberdade, declara, portanto, pretender renovar e superar, em sentido meta-marxista franco-gramsciano, “a separação entre reformistas e revolucionários”, dado que “a relação de classes se inscreve na relação ecológica que constitui doravante o horizonte do socialismo”, razão pela qual erige-se, finalmente, em Socialismo Mercantil-Humanizado Ecológico, dotado de uma Contratualidade Estatal Dirigente, e, portanto, não como uma sociedade pós-mercantil deshumana – fraqueza de Marx e Engeks, Lenin e Trotsky.

Como bem pode perceber o leitor, trata-se de um projeto clara e autenticamente idealista-subjetivista gramsciano, equacionado agora tendo como referência o pensamento de Immanuel Kant, John Rawls e Jürgen Habermas, bem como uma leitura de Georg W. F. Hegel de péssima qualidade, semelhante aquela empreendida pelo pensador liberal italiano idealista Benedetto Croce, inspirador do pensamento de Antonio Gramsci. 

É nesse preciso sentido de profunda desnaturação, descaracterização e corrupção da doutrina de Marx e Engels, em sentido idealista-subjetivista gramsciano, tendo como aspiração a superação do capitalismo na forma de um Socialismo Mercantil-Humanizado Ecológico, dotado de uma Contratualidade Estatal Dirigente, que Jacques Texier proclama, com aparências de “radicalismo democrático”, situado acima das classes sociais em luta, de tal modo a lograr subjulgar as abordagens teóricas e políticas empreendidas pelos dirigentes e ideólogos do Secretariado Unificado da Quarta Internacional (SU-QI) da atualidade : 

 

“Minha conclusão é a de que não se pode defender a atualidade do projeto marxista de emancipação senão ao preço de uma radical correção que concerne à funcionalidade das relações mercantis na fase pós-capitalista e uma revalorização que concerne à teoria da democracia(p. 60). ...

A fim de poder repropor um projeto socialista convincente, parece-me necessário afrontar um problema fundamental, que é aquele relativo às formas possíveis e às condições de realização de uma apropriação social verdadeira.

Um projeto socialista é, com efeito, necessariamente o de uma apropriação, pelos indivíduos e grupos, das condições materiais, culturais e políticas de sua existência social.

E a apropriação é a desalienação de uma vida social tornada estranha aos indivíduos.

Ela deve ser pensada como democratização radical de todos os aspectos da vida social, sendo que essa democratização radical implica a superação do capitalismo existente e das formas de democracia limitada que se pode tolerar.

Isso não representa senão uma indicação geral que exige muitos aprofundamentos, mas já se trata da indicação de uma via alternativa que nos permite pensar e agir para além do “ou isso ... ou aquilo ... “, em que nos querem aprisionar”(p. 62).[20]        

 

 

 

O meta-marxismo franco-gramsciano de Actuel Marx, fundado, em sentido lógico-doutrinário, no revisionismo gramsciano do marxismo, iria ao longo de toda a década de 90, aproximar, influenciar, envolver e corromper, teórica e politicamente, marcada e progressivamente, os mais expressivos teóricos trotskystas, da Ligue Communiste Révolutionnaire (LCR), seção francesa do Secretariado Unificado da Quarta Internacional,  e, finalmente, a própria direção do SU-QI.

Assim, é correto afirmar que os mais pronunciados ideólogos meta-marxistas franco-gramscianos de Actuel Marx, i.e. os mais representativos atualizadores meta-marxistas, em estilo franco-gramsciano, Jacques Texier e Jacques Bidet, cristalizam, presentemente, em seus textos as idéias essenciais, estruturadoras de todo o movimento intelectual-político, impulsionado ao longo dos últimos anos e ainda nos dias de hoje, que conduziu e conduz à crescente capitulação da direção do SU-QI à ideologia de correção e superação gramsciana do marxismo, i.e. à sua atualização em sentido meta-marxista ou pós-moderno, tal como os próprios ideólogos dessa corrente doutrinária peremptoriamente a afirmam e publicamente a reivindicam.

Cumpre verificar, adicionalmente, se é, real e doculmentalmente, justo afirmar que os principais teóricos de Actuel Marx, e, por consegüinte, também dos Espaces Marx e Espaces Marx Réseau International. Pour Une Construction Citoyenne du Monde espaços esses em que atualmente participa ativamente a direção do SU-QI e da LCR – corrompem, desfiguram, desnaturam, vergonhosamente, a herança revolucionária que Marx e Engels, de Lenin, Sverdlov e Trotsky, legaram ao proletariado, ao invés de supostamente, como sustentam falaciosamente, corrigí-la, atualizá-la, superá-la etc.

Às páginas 362 de sua mais expressiva e recente obra dedicada ao estudo da Revolução e Democracia em Marx e Engels, o expoente do franco-gramscismo meta-marxista de Actuel Marx, Jacques Texier, ressalta, de modo meridianamente claro :

 

“Estamos no fim do século XX e o ciclo histórico aberto pela Revolução de Outubro está acabado.

Contudo, mesmo em 1998, não nos acreditamos autorizados a decretar, no lugar dos povos, se eles devem ou não recorrer à revolução violenta e, em particular, à fórmula da revolução permanente.

Tratando-se da Revolução Russa, pelo contrário, um elemento novo ocorreu acerca do qual Gramsci, tal como muitos outros, jamais concebeu a existência : a bancarrota generalizada do sistema socialista.

O evento é tão colossal que somos obrigados a recolocar as questões que pareceriam, desde há longo-tempo, estarem resolvidas : aquela, p.ex., da racionalidade da Revolução de Outubro enquanto revolução socialista”.

 

Em nota a esse parágrafo, o principal mentor intelectual de Actuel Marx e dos Espaces Marx assinala, então, despudoradamente, procurando posicionar, em um primeiro momento Lenin e Gramsci contra Trotsky  :

 

”Encontramos nos Cadernos do Cárcere alguns elementos que podem dar a pensar que Gramsci não se situa longe de colocar em causa a escolha feita por Lenin e Trotsky, em outubro de 1917 de começar na Rússia a revolução socialista. Porém, seu ataque – extremamente violento – é dirigido contra Trotsky e a teoria da “revolução permanente”.[21]

 

 

 

Depois daqui, Texier é, manifestamente, claro para não deixar dúvidas acerca do campo teórico em que se coloca. Se não, verifique-se :

 

“Sem querer sair do quadro de nossa exposição que é consagrada a Marx e Engels, e não a Lenin e Trotsky, gostaria, contudo, de sublinhar que existe um ponto no pensamento político de Marx e Engels que me pareceu problemático, a saber : aquele das relações entre a fase democrática e a fase socialista na “revolução permanente”.

Digo-o porque considero que o socialismo é privado de sentido fora de uma expansão da democracia, em todos os domínios da vida social e não vejo como poderia existir um “trans-cruzamento” da democracia no socialismo nas condições de Outubro de 1917, tendo em vista as idéias defendidas por Lenin e Trotsky sobre a ditadura do proletariado.

É o que afirmava Rosa de Luxemburgo nas notas sobre a Revolução Russa escritas durante o verão de 1918 e publicadas mais tarde por Paul Levi, onde ela crítica a “teoria de Lenin-Trotsky”(ROSA LUXEMBOURG, La révolution russe, Paris, Spartacus, s.d.)

Disso concluo, que a Revolução de Outubro não coloca em causa a idéia de socialismo, mas sim o marxismo de Lenin e Trotsky.”[22]

 

 

 

Eis aí, portanto, com quais „forças de vanguarda, que se encontram em desenvolvimento em diversos países e continentes“ , referidas nas declarações do XII Congresso Mundial do Secretariado Unificado da Quarta Internacional, de 1985, decidiu-se a direção do SU-QI empreender „colaboração“ (no original alemão : Zusammenarbeit), que combinasse „construção da IV Internacional, tal como ela existe“.[23]

 

 

Tal como é possível (des-)aprender-se com as conclusões do mais pronunciado preceptor do franco-gramscismo meta-marxista de Actuel Marx e dos Espaces Marx, aquilo que surge colocado em causa na idéia do socialismo é o „marxismo de Lenin e Trotsky“, i.e. a defesa teórica e a implementação prática da Ditadura Revolucionária do Proletariado, na forma e no conteúdo políticos concebidos por Marx e Engels, sendo que para Jacques Texier seria, por isso mesmo, indispensável dar-se início ao debate acerca da racionalidade e, por consegüinte, igualmente, sobre a possível irracionalidade da Revolução de Outubro enquanto revolução socialista.      

É óbvio e ululante que Jacques Texier, em sua perspectiva idealista-subjetivista gramsciana, rejeita, claramente, à concepção de Marx e Engels, Lenin, Sverdlov e Trotsky, que afirma incorporar a Ditadura Revolucionária do Proletariado a mais ampla e incomparávelmente superior Soberania proletária.

Nisso entretanto, procurando ludibriar, mitrar e, finalmente, empandeirar o leitor incauto e desavisado, Jacques Texier intenta lançar Rosa Luxemburg contra Lenin e Trotsky, em sua funesta empresa de desnaturação, descaracterização e deformação do marxismo, bem como da revolução proletário-socialista russa : Luxemburg surge, assim, sem qualquer traço autenticamente marxista-engelsiano, inteiramente descomprometida com a deflagração de revoluções violentas para a derrubada do capitalismo, bem como plenamente desvinculada da defesa agüerrida da Ditadura Revolucionária do Proletariado, incorporadora da mais ampla Soberania proletária.

Luxemburg é desenhada pelo franco-gramsciano Jacques Texier, deformadamente, em preto e branco, tal como uma social-oportunista vulgar que carrega, eternamente, consigo, no caminho da luta pelo socialismo, a auréola santificada da defesa de preconceitos e fórmulas de liberdade essencialmente democrático-burguesas.

Cumpre, nesse passo, verificar, documentalmente, se Ernst Mandel e François Vercammen – esse último o mais importante representante do Secretariado Unificado da Quarta Internacional (SU-QI) na atualidade -, levantam-se contra as estapafúrdias concepções retro-elencadas de Jacques Texier, protestando, firme e decididamente, contra a tentativa de vulgar falsificação ideológica do papel revolucionário assumido historicamente por Rosa Luxemburg.

Como se sabe, torna-se, nos dias de hoje, cada vez mais necessário, resgatar e defender, devidamente, a tradição essencialmente marxista de Karl Liebknecht e Rosa Luxemburg, comprometida, antes e acima de tudo, com a perspectiva de organização da revolução violenta do proletariado para a edificação de sua Ditadura Revolucionária. Esse posicionamento foi, precisamente, reconhecido e postulado por Lenin no contexto de seu Discurso de Abertura do I Congresso do Komintern, quando se referiu a Liebknecht e Luxemburg, enquanto os melhores representantes da Internacional Comunista, tal como já assinalado no presente texto.[24]

 

 

Em sua luta contra a falsificação política da consigna contida no Programa de Erfurt relativa à „conquista do poder político“, falsificação essa empreendida pelos marxistas-reviosinistas e sociais-reformistas do Partido Social-Democrático dos Trabalhadores Alemães(SDAP), representados, antes de tudo, por Eduard Bernstein, Conrad Schmidt e Karl Kautsky – e, em parte, também por Wilhelm Liebknecht que renegava a necessidade histórica da Ditadura Revolucionária do Proletariado para o atingimento do socialismo – admitindo-a apenas como medida excepcional em caso de guerras – escreveu Luxemburg, já em 1903, de modo claro e preciso:

 

“Partindo do fundamento do socialismo científico de que „a libertação da classe trabalhadora pode ser apenas obra da classe trabalhadora“, a Social-Democracia reconhece que subversão, i.e. a revolução para concretização da reconformação socialista, pode ser realizada apenas pela classe trabalhadora enquanto tal, e, em verdade, enquanto propriamente a ampla massa, sobretudo a massa do proletariado industrial. A primeira ação da transformação socialista tem de ser, portanto, a conquista do poder político através da classe trabalhadora e a edificação da Ditadura do Proletariado, necessária incondicionalmente à materialização das medidas de transição.“[25]

 

 

 

A afirmação aqui formulada não pretende ocultar ao leitor a autêntica e histórica polêmica travada entre Luxemburg, Lenin e Trotsky, enquanto revolucionários proletários marxistas, acerca não apenas da natureza, extensão e limites da Soberania proletária, no quadro da Revolução de Outubro, senão ainda quanto à questão do Direito de Auto-Determinação da Nações Oprimidas e a Questão Agrária Russa.[26]

 

 

Adstringindo-nos aqui à questão da Soberania proletária na Ditadura Revolucionária do Proletariado, cumpre assinalar que Rosa Luxemburg abandona notoriamente, na passagem de sua crítica em destaque, o critério de classe revolucionário-proletário, ao empreender sua defesa „em geral“ da Assembléia Constituinte, do Direito Geral Eleitoral, da Liberdade de Reunião e de Imprensa, em suma, de todo o aparato das supostas liberdades fundamentais democráticas das massas populares.

Em verdade, Luxemburg omite o fato fundamental e decisivo de que a Assembléia Constituinte de que fala negou-se, expressamente, em 5 de janeiro de 1918, a sufragar a Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Oprimido e o Programa do Poder Soviético, e, em 6 de janeiro de 1918, a aprovar a Política de Paz do Governo Soviético.

Fosse essa Assembléia Constituinte realmente representativa das „massas populares“(no original alemão : Volksmassen), não teria, de nenhuma forma, embargado a votação da Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Oprimido, justamente em sua sessão de abertura.[27]

 

 

De toda sorte, seria pretender reduzir Rosa Luxemburg à condição de uma social-oportunista vulgar – como o fazem os meta-marxistas franco-gramscianos e os principais ideólogos do SU-QI – caso não destacassemos, em letras garrafais, que Luxemburg, mais uma vez no texto intitulado „Acerca da Revolução Russa“, de junho de 1918, colocou-se, às escâncaras e magistralmente, em defesa da Ditadura Revolucionária do Proletariado, quando assinalou, enfaticamente:

 

Os bolcheviques colocaram, imediatamente, enquanto objetivo dessa tomada do poder, todo o programa revolucionário mais amplo: não, por ex., a garantia da Democracia Burguesa, mas a Ditadura do Proletariado, com o objetivo de concretização do socialismo.

Com isso, conquistaram o mérito histórico imortal de proclamar, pela primeira vez, os objetivos finais do socialismo, enquanto programa imediato da prática política(p. 341). ...

Isso é o essencial o remanescente da política bolchevique. Nesse sentido, cabe-lhes o mérito histórico imortal por terem se adiantado ao proletariado internacional com a conquista do poder político e da colocação prática da concretização do socialismo, bem como por terem impulsionado, poderosamente, a disputa entre capital e trabalho no mundo inteiro. Na Rússia, o problema pode ser apenas colocado.

Na Rússia, não pôde, porém, ser resolvido. Esse problema pode apenas ser resolvido em escala internacional. E, nesse sentido, o futuro pertence, em todas as partes, ao „bolchevismo“(p. 365).“[28]

 

 

 

Pronunciando-se, sumariamente, acerca de Rosa Luxemburg, Lenin teve a oportunidade de evidenciar, nítida e ponderadamente, os seus diversos equívocos, porém destacando, justamente, que, apesar de todos os seus erros, Rosa foi e permanece sendo uma águia do marxismo revolucionário :

 

Paul Levi quer agora cair nas graças da burguesia – e, conseqüentemente, de seus agentes, a II Internacional e II ½ Internacional – através da republicação precisamente daqueles escritos de Rosa Luxemburg em que ela se encontrava equivocada.

Devemos responder a isso, citando duas linhas de uma boa velha fábula russa: “As águias podem, às vezes, voar mais baixo do que as galinhas, porém as galinhas não podem jamais subir às alturas das águias.”(EvM.: a fábula em referência é de autoria de Ivan Krylov).

Rosa Luxemburg equivocou-se na questão da independência da Polônia.

Equivocou-se, em 1903, em sua apreciação do menchevismo.

Equivocou-se na teoria da acumulação do capital.

Equivocou-se quando, em julho de 1914, juntamente com Plekhanov, Vandervelde, Kautsky e outros, defendeu a unificação dos bolcheviques com os mencheviques.

Equivocou-se em suas anotações redigidas no cárcere de 1918 (nesse sentido, corrigiu a maioria de seus erros, depois de abandonar o cárcere, no fim de 1918 e no início de 1919).

Porém, apesar de todos os seus erros, Rosa foi e permanece sendo uma águia.

E não apenas os comunistas de todo o mundo irão velar pela sua memória, porém sua biografia e suas obras completas (a publicação das quais está sendo incomensuravelmente retardada pelos comunistas alemães que podem apenas ser em parte desculpados por conta das tremendas perdas que estão sofrendo em sua severa luta) servirão como úteis manuais para o treinamento de muitas gerações de comunistas em todo o mundo.

«Desde 4 de agosto de 1914, a Social-Democracia Alemã tornou-se um cadáver fedorento », essa declaração há de tornar  famoso o nome de Rosa Luxemburg na história do movimento da classe operária internacional.

E, naturalmente, no pátio traseiro do movimento da classe operária, entre os montes de esterco, galinhas como Paul Levi, Scheidemann, Kautsky e toda aquela sua fraternidade, vão piar sobre os erros cometidos pela grande comunista.      

A cada pessoa deve-se dar o que lhe pertence.”[29]

 

 

 

Visto isso, cumpre destacar que, “piando entre os montes de esterco”, encontram-se os dois principais dirigentes do Secretariado Unificado (SU-QI), Ernst Mandel, François Vercammen.

Ignorando inteiramente a referência de Lenin acerca dos equívocos de Rosa Luxemburg e, ao mesmo tempo, o fato de que Rosa corrigiu, no fim de 1918 e no início de 1919, a maioria de seus erros contidos em suas anotações redigidas no cárcere de 1918 sobre a Revolução Russa, Ernst Mandel, alegando infundadamente, em seu livro “Outubro de 1917 – Golpe de Estado ou Revolução Social. Em Defesa da Revolução de Outubro - que a criação da Tcheka houvera sido necessariamente um erro cometido por Lenin, Sverdlov, Trotsky e os bolcheviques, desenvolve uma defesa renitente e desavergonhada das teses de Rosa Luxemburg contidas no livro dessa última, intitulado “A Revolução Russa”, redigido no cárcere de 1918, ocultando ao leitor que Rosa, ela mesma, corrigiu a maioria de seus erros, depois de abandonar o cárcere, no fim de 1918 e no início de 1919)”.[30]

 

 

Para Ernst Mandel - que pia como uma galinha - as teses do cárcere de 1918 de Rosa Luxemburg teriam-se demonstrado válidas não, porém, para 1918 – como haveria pretendido sua própria autora -, mas sim perfeitamente para os anos a partir de 1920 e 1921 da Revolução Proletária Russa.

Como se vê, mais uma brilhante falsificação histórica e extraordinária embrulhada analítica de Ernst Mandel e de seu conivente seguidor François Vercammen.

Mais ainda : é de se perguntar ao leitor se François Vercammen, enquanto um dos atuais dirigentes políticos máximos do SU-QI,  entenderia, tal como o expoente máximo do franco-gramscismo meta-marxista de Actuel Marx, Jacques Texier, que essa degenerescência burocrática seria devida ao “marxismo de Lenin e Trotsky“, o qual colocaria em causa a idéia do socialismo.

François Vercammen escreve acerca dessa temática, em sua obra mais célebre, realizada em colaboração com Alain Tondeur, intitulada Reinventar a Esperança. Um Socialismo da Libertação para o Século XXI, da seguinte forma :

 

„ « A revolução operária é, de início, a conquista da democracia. »

Essa pequena frase do Manifesto Comunista é de uma grande profundidade.

É justamente contra essa „conquista da democracia“, do poder pelo povo, que o sistema capitalista emprega todos os meios à sua disposição.

Cada vez que o povo conseguiu „conquistar a democracia“, ou a tentou realizar, o imperialismo respondeu da mesma maneira como o fez em face da Revolução Russa : bloqueio, intervenção militar, sabotagem econômica.

Cada vez que essa política não apenas submeteu a revolução vitoriosa a uma terrível pressão : ele a forçou, além disso, a sobreviver, a se mutilar ela mesma, a recorrer ela também a meios autoritários.

Cada vez mais, esse recurso a meios autoritários criou um clima favorável à degeneração burocrática(p. 67).

Na época, essa degenerescência não foi percebida senão por uma ínfima minoria.

Minoritária na denunciação da burocracia no seio da social-democracia alemã, Rosa Luxemburgo lançou aos bolcheviques advertências, extremamente úteis, para recordar que elas emanavam de uma revolucionária totalmente engajada no apoio a Outubro.

« A massa popular deve participar em seu conjunto », escreve ela em 1917.

« Caso contrário, o socialismo é decretado, outorgado por uma dúzia de intelectuais, reunidos em torno de uma tapete verde.

Lenin e Trotsky impuseram os soviets como a única representação verdadadeira das massas laboriosas.

Porém, se abafamos a vida política em todo o país, a paralisia ganha, obrigatoriamente, a vida nos soviets.

Sem eleições gerais, sem uma liberdade de imprensa e de reunião ilimitada, sem uma luta de opinião livre, a vida se estiola em todas as instituições públicas, vegeta, e a burocracia permanece o único elemento ativo (ROSA LUXEMBOURG, La révolution russe, in : Oeuvres II Maspéro, Paris, 1971). »(p.67)“ “[31]

 

 

 

Evidentemente, tais posicionamentos causticamente críticos do principal representante político do SU-QI em relação à degenerescência burocrática, provocada pelo « marxismo de Lenin e Trotsky », para recordar aqui as palavras lapidares de seu amigo de armas franco-gramsciano, Jacques Texier, não hão de ser considerados excepcionalmente – senão apenas, em sentido nímiamente extraordinário, quanto ao caso cubano, pois como bem salienta François Vercammen, em se tratando dessa temática :

 

„O caso cubano deve ser distinguido dos outros.

Nesse país, uma burocracia existe, mas não se pode dizer que teria monopolizado o poder, nem que ela teria matado o Partido, nem que a sociedade não dispõe de nenhum meio de a combater em nome do socialismo.

Na pátria de adoção de Che Guevara, a histórica permanece aberta ...“[32]

 

 

 

Na base dessas interpretações teóricas acerca do „marxismo de Lenin e Trotsky“ e do papel vulgarmente falsificado, em sentido social-oportunista e democrático-burguês, de Rosa Luxemburg tornou-se, possível, precisamente a partir de 1986, um amplo e magnificente trabalho de colaboração política e intelectual dos principais dirigentes do Secretariado Unificado da Quarta Internacional(SU-QI) com o franco-gramscismo meta-marxista de Actuel de Marx, de Jacques Texier e Jacques Bidet. [33]

 

 

Sob a direção de Jacques Texier e Jacques Bidet, cumpre destacar mais uma vez sous la direction de Jacques Texier et Jacques Bidet, os mais renomados dirigentes intelectuais do SU-QI e da LCR iniciaram sua vasta colaboração literária e política, participando ativa e fraternalmente – i.e. sem choques, sem críticas, sem atritos, sem repreensão das idéias e dos posicionamentos de Texier e Bidet – nos Colóquios Internacionais de Actuel Marx, a partir de 1990, bem como nos Congrès Marx International I, de 1995, e Congrès Marx International II, de 1998.

Os principais artigos teóricos dos mais expressivos intelectuais do SU-QI e da LCR, plenamente compatíveis com a direction de Jacques Texier et Jacques Bidet,  encontram-se editados na coleção de livros Actuel Marx Confrontation, publicada em concurso com a Universidade de Paris X – Nanterre (Sorbonne) e o Istituto Italiano per gli Studi Filosofici.

Alguns exemplos concretos desse processo de colaboracionismo do SU-QI com o franco-gramscismo :

 

1.  No Colóquio Internacional Fim do Comunismo ? Atualidade do Marxismo ?, organizado por Actuel Marx,  sous la direction de Jacques Texier et Jacques Bidet, realizado na Sorbonne, nos dias 17, 18 e 19 de maio de 1990, é possível encontrar-se Daniel Bensaïd empreendendo seu já retro-referido pequeno escorregão da Ditadura do Proletariado à Democracia Socialista, juntamente com as teses de Jacques Texier e Jacques Bidet relacionadas com a correção, atualização e superação de Marx e Engels, Lenin e Trotsky no domínio dos seguintes temas tradicionais como : capitalismo, comunismo, marxismo, socialismo, bem como sobre outros temas, tipicamente, esotérico-gramscianos como: „comunismo histórico e marxismo“, „releitura de Marx“, „morte do marxismo-leninismo“, „morte de Lenin, vida de Marx“ entre outros;[34]

 

 

2.  No Colóquio do Conselho Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) da França, intitulado Os Paradigmas da Democracia, organizado por Actuel Marx,  sous la direction de Jacques Bidet, realizado na Sorbonne, nos dias 29 e 30 de maio de 1990, é possível encontrar-se Catherine Samary desenvolvendo sua aborgagem mercantil-socialista a ser referida, ladeando – sem choques, críticas ou notas de ressalva - as teses de Jacques Texier e Jacques Bidet relacionadas com a correção, atualização e superação de Marx e Engels, Lenin e Trotsky no domínio dos seguintes temas tradicionais como : poder e soberania, justiça, Estado, liberdade, bem como sobre outros temas, propriamente, especulativo-gramscianos como : „antinomia da democracia“, „democracia pelo mercado“, „cidadania e representação“, „liberdade dos antigos, liberdade dos modernos“ entre outros;[35]

 

 

 

3.  No Colóquio Internacional O Novo Sistema do Mundo, organizado por Actuel Marx,  sous la direction de Jacques Texier et Jacques Bidet, realizado na Sorbonne, nos dias 29 e 30 de maio de 1992, é possível encontrar-se Michaël Löwy aplicando seu já retro-referido método crítico-desconstrutivo do marxismo, coadjuvando as teses de Jacques Texier e Jacques Bidet relacionadas com a correção, atualização e superação de Marx e Engels, Lenin e Trotsky no domínio dos seguintes temas tradicionais como : a dissolução da URSS, a nova divisão do mundo, relações de dominação, bem como sobre outros temas, tipicamente, lexicográfico-gramscianos como: „misérias e grandezas do marxismo no Leste“, „espaços-mundo“, „o melhor dos mundos possíveis“, „auto-consciência, falsa consciência e auto-crítica no Ocidente“ entre outros.[36]

 

 

A seguir, o colaboracionismo dos principais dirigentes teóricos e políticos do SU-QI e da LCR Francesa com o franco-gramscismo meta-marxista de Actuel Marx passou, então, a ter lugar no quadro dos Congrès Marx International.

Em setembro de 1995, teve lugar o Congrès Marx International I : Marx Atual, e, em setembro/outubro de 1998, o Congrès Marx International II : O Capitalismo, Críticas, Resistências, Alternativas.

De 26 a 29 de setembro de 2001, deverá ter lugar, então, o Congrès Marx International III : O Capital e a Humanidade, na Universidade de Paris X Nanterre (Sorbonne).

Os Congrès Marx International são, propriamente, encontros realizados nas sedes das Universidades de Paris I (Panthéon-Sorbonne) e Paris X – Nanterre, tendo duração de cerca de 4 a 5 dias.

Tais congressos são convocados e realizados por iniciativa de Actuel Marx, i.e. sous la direction de Jacques Texier et Jacques Bidet, com o apoio do Conselho Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) da França e do Istituto Italiano per gli Studi Filosofici.

Diversas organizações e revistas francesas juntam-se, costumeiramente, a esse empreendimento, a saber : Critique communiste (Revista Teórica da LCR Francesa), Ecologie Politique, L’Homme et la Société, Futur Antérieur, La Pensée, Issues, Nouvelles questions féministes, Revue M, Politique la Revue, Le Ressy, Appel des économistes pour sortir de la pensée unique.

Os Congrès Marx International contam, em média, com a presença de 500 participantes ativos, entre professores de universidades, pesquisadores, doutorandos e estudantes, vindos das mais diversas partes do mundo, com destaque para Europa ocidental e oriental, Américas e países árabes e africanos francófonos.

A entrada é, porém, gratuita para os assalariados e para os participantes de países de „monnaie faible“.

Em sentido organizativo-interno, os Congrès Marx International estruturam-se em „ateliers“, „pólos científicos“ e „plenárias gerais do Congresso“.

Os Congrès Marx International dividem-se, nesse quadro, em cerca de 50 a 100 „ateliers“, em cujo âmbito se processam as apresentações de „proposições“ dos intelectuais solidários, coniventes ou colaboradores com o projeto franco-gramsciano meta-marxista de Actuel Marx, de correção, atualização e superação do pensamento de Marx e Engels, Lenin e Trotsky, no sentido de sua desnaturação meta-marxista.

As „proposições“ são textos analíticos situados nos domínios de 8 „pólos científicos“, a saber : Filosofia, Economia, Direito, Sociologia, História, Ciências Políticas, Estudos Marxistas e Cultura, desde uma perspectiva, em princípio pluridisciplinar.

Cada um dos „pólos científicos“ é dirigido por uma personalidade responsável e moderadora, em regra, firme e historicamente vinculada à perspectiva teórico-doutrinária do franco-gramscismo meta-marxista de Actuel Marx.

Tomando-se, como exemplo, o mais recente Congrès Marx International, i.e. o Congrès Marx International II : O Capitalismo, Críticas, Resistências, Alternativas., que teve lugar entre 30 de setembro e 3 de outubro de 1998, é mister constatar-se a indicação dos seguintes pensadores, que se ocuparam da direção dos pólos científicos e ateliers.

 

1.  Responsável e Moderador do Pólo de Filosofia „A Questão da Razão e a Filosofia Política : Marxismo e Pós-Marxismo.“  : André Tosel.

Atelier 1 Ciências e Dialéticas  : Lucien Sève e Patrick Tort.

Atelier 2 Fenomenologia, Linguagem e Marxismo  : Jocelyn Benoist, Domenico Jervolino, Jean-Renè Ladmiral.

Atelier 3 Historicidade e Evento : Daniel Bensaϊd, Henri Maler, Catherine Colliot-Thelene.

Atelier 4 Liberalismo e Socialismo : Domenico Losurdo, Alberto Burgio, Isabelle Garo.

Atelier 5 A Moral e a Ética : Yvon Quiniou, Tony Andrèani, Enrique Dussel.

Atelier 6 A Democracia na América : David Lapoujade, Edgardo Logiudice.

Atelier 7 Hanna Arendt : Anne Amiel, Denis Collin, Montserrat Galgeran.

Atelier 8 Jürgen Habermas : Gabriel Vargas-Lozano, Arno Munster.

 

2.  Responsáveis e Moderadores do Pólo de Economia „Crítica do Neoliberalismo. O Futuro do Capitalismo.“ : Gérard Dumenil e Dominique Levy.

Atelier 1 Tendências Longas : Isaac Johsua, Louis Fontvieille, Sandrine Michel.

Atelier 2 As Transformações do Capitalismo e as Perspectivas Socialistas : Paresh Chattopadhyay, Alin Cottrel, Paul Cockshott.

Atelier 3 Mudança Técnica e Inovações : Sophie Boutillier, Edouard Cipolla, Paulani Serge.

Atelier 4 Mundialização. Figuras Contemporâneas do Imperialismo : François Chesnais, Claude Serfati, Louis Gill.

Atelier 5 Mundialização-Globalização : Kostas Vergopoulos, Claude Pottier, Sam Noumoff.

Atelier 6 Marx e a Mundialização : Rolande Borrelly, Ramine Motamed-Nejad.

Atelier 7 Crise e Desemprego : Francis Bismans, Peter Skott.

Atelier 8 A Crise Financeira no Sudeste Asiático : Suzanne de Brunhoff, Patrice Geoffron.

Atelier 9 Papel do Estado e Políticas : Frédéric Lordon, David Leadbeater.

Atelier 10 Estudos Empíricos : Christophe Darmangeat, Pierre Le Masne.

Atelier 11Trabalho, Renda e Exploração : Stéphanie Treillet, Patrick Dieuaide.

Atelier 12 Status do Trabalho : Guy Caire, Edouard Poulain.

Atelier 13 Valor e Preço : Alan Freeman, Jean-Guy Loranger.

Atelier 14 Lucro, Salário e Renda : Edith Klimosky, Emilio Chaves.

Atelier 15 Macroeconomia e Finança : Catherine Martin, Alain Herscovici.

Atelier 16 Teoria da Empresa. Economistas contra o Pensamento Único : Hubert Gabrie, Jean Netter.

Atelier Ensinar Marx : Marie Cohen, Thierry Pouch

 

3.  Responsáveis e Moderadores do Pólo de Direito „A Humanidade e o Direito“ : Monique Chemilier-Gendreau,  Y. Moulier-Boutang

Atelier 1 Novos Territórios do Direito : Monique Chemilier-Gendreau, Gérard Soulier, Gérard Marcou, Robert Charvin.

Atelier 2 Pluralismo Jurídico : Geneviève Koubi, Oscar Correais, Michel Miaille

Atelier 3 Direitos de Propriedade e Apropriação : Françoise Dreyfus, Chistain Barrère.

Atelier 4 Poder do Direito e Direito do Poder : Carlos Herrera, Betrand Mertz, Mikhaël Xifaras.

Atelier 5 Mutações da Relação Salarial e Direito do Trabalho : Antoine Jeammaud, Gérard Farjat, Alain Supiot, Giuseppe Bronzini.

 

4.  Responsáveis e Moderadores do Pólo de Sociologia „As Lutas Sociais e Políticas Perderam Toda Referência de Classe.“ : Jean Lojkine, D. Linhart e Cl. Leneveu.

Atelier 1 Ética e Política : Mateo Alaluf, Ph. Corcuff, Nicole Laurin.

Atelier 2 Eficácia Econômica e Justiça Social : Catherine Didry, D. Bachet, Claude Didry.

Atelier 3 Sociologia Desencantada dos Novos Movimentos Sociais : Pierre Turpin, Sylvie Contrepois.

Atelier 4 Divisão do Trabalho, Dominação, Cooperação na Empresa – Quais Mecanismos ?  : D. Linhart, JP. Durand.

Atelier 5 Que Classes Sociais Hoje : Marco Oberti, Fr. Dubet, Michel Pinson.

Atelier 6 Relações de Classe e Relações de Geração : Bruno Lefebvre, Stéphane Beaud, Gérard Mauger, Louis Chauvel.

 

5.  Responsáveis e Moderadores do Pólo de História „História dos Movimentos Sociais.“ : Serge Wolikow.

Atelier 1 História Econômica : Jean Guarrigues, Alexandre Fernandez.

Atelier 2 História Antiga e Medieval : Guislain Chevrier, Patrick Boucheron.

Atelier 3 Leituras e Historiografia da Revolução Francesa : Claudine Wolikow, Florence Gauthier.

Atelier 4 História Crítica e Histórias de Representações : Frédéric Genevée, Patrick Garcia.

Atelier 5 História do Comunismo e do Movimento Operário : Pierre Broué, Bernard Pudal, Claude Pennetier, Michel Dreyfus.

Atelier 6 Socialismo : Roland Lew, Bernard Chavance.

Atelier 7 Rússia e China : Alexander Buzgalin, Li Qi Qing.

 

6.  Responsáveis e Moderadores do Pólo de Ciências Políticas „Movimento Sindical e Sindicalismo Assalariado“: René Mouriaux e Michel Vakaloulis.

Atelier 1 Para Onde Vão as Relações Salariais : Bernard Friot, Jean-Pierre Durand.

Atelier 2 Formas de Mobilização Coletiva na Crise Contemporânea : Jacques Capdevielle, J.R. Pendaries.

Ateliers 3 e 4 Relação Política e Horizonte de Emancipação : Sophie Beroud, René Mouriaux, Chistophe Aguitton, Michel Deschamps.

 

7.  Responsáveis e Moderadores do Pólo de Estudos Marxistas : Valérie Seroussi, Eustache Kouvelakis.

Atelier 1 Traduções e Edições de Marx e Engels : Dieter Deichsel, Wolfgang Haug.

Atelier 2 Enraizamentos : Nicolas Fevrier, Emmanuel Renault.

Atelier 3 Marxismo e Filosofia : Michaël Löwy, Yves Sintomer.

Atelier 4 Marxismo e Política : Emmanuel Barot, Samuel Dantzig.

Atelier 5 O Capital Hoje : Jacques Bidet, Bertell Ollman.

Atelier 6 O Marxismo Hoje : Alex Callinicos, Franco Soldani.

Atelier 7 A Política nas Tradições Marxistas : Jacques Texier, Jean-Claude Bourdin, Gilbert Achcar.

 

8.  Responsáveis e Moderadores do Pólo de Cultura : J.M. Lachaud, Véronique Goutheyron.

Atelier 1 Arte e Política 1 : Jean-Marc Lachaud, Algis Uzdavinys.

Atelier 2 Arte e Política 2 : Bernard Sobel, Michelle Raoul-Davis.

Atelier 3 Instituições Culturais em Questão : Etienne Balibar, Robert Abirached.

Atelier 4 Cultura Mestiça e Cosmopolitismo : Françoise Gaillard.

Atelier 5 Dimensão Política da Arte Hoje 1 : Jean-Marc Adolphe, Christian Ruby.

Atelier 6 Dimensão Política da Arte Hoje 2  : Martine Maleval.

Ateliers 7 e 8 Brecht e o Marxismo : Philippe Ivernel, Wolfgang Haug, Nicolas Tertulian.

 

As „proposições“ são redigidas pelos intelectuais solidários, coniventes ou colaboradores com o projeto franco-gramsciano meta-marxista de Actuel Marx e, eventualmente, por certos participantes pesquisadores, doutorandos e estudantes, voluntariamente, segundo sua própria escolha e seu próprio arbítrio.

Tais „proposições“ são enviadas, de antemão, à secretaria congressual e, posteriormente, colocadas à disposição dos participantes para fotocópias.

Na medida em que o número de proposições enviadas é elevado – cerca de 200 ou mais por congresso -, cumpre à secretaria incluí-los no livreto-programa e comunicar aos expositores que apresentarão suas „proposições“ nos „ateliers“ acerca dos textos disponíveis, visando eventual abordagem e comentário.

Nos „ateliers“, existe certa possibilidade limitada de debate ou intercâmbio de opiniões entre expositores e participantes, sendo que nessa sede, entretanto, nada se delibera.

A possibilidade de intercâmbio de materiais, contatos e concepções entre expositores e participantes fica, entretanto, a critério e iniciativa desses últimos, nos ateliers ou junto às salas de consulta, ao longo dos dias de apresentação das proposições.

Os Congrès Marx International possuem o seu centro de funcionamento nervoso nas „plenárias gerais do Congresso“.

Nessas plenárias, realizam exposições apenas os professores ou pensadores escalados, antecipadamente, por Actuel Marx, e ferreamente solidários com os fundamentos do franco-gramscismo e com a perspectiva de correção, atualização e superação da doutrina de Marx e Engels, Lenin e Trotsky de Jacques Texier e Jacques Bidet.

Nos „plenárias gerais do Congresso“ falam os expositores escalados previamente por Actuel Marx e ninguém mais.

Nas „plenárias gerais do Congresso“ não há debates, não se formula indagações aos expositores, não se requer ou se toma quaisquer decisões, não se faz apartes : ocorrem apenas exposições unilaterais, monólogos de esputação, dos professores ou pensadores oradores, em tom manifestamente professoral, à guisa de comunicações de supostas grandes descobertas científicas, pretendidas novas concepções ou lançamento de inéditas produções literárias, realizadas em virtude de longos meses ou anos de pesquisa.

O encerramento do Congrès Marx International também possui esse mesmo feitio : não há deliberações adotadas, senão apenas um conjunto de exposições dos oradores escolhidos para o encerramento.

A coleção Actuel Marx Confrontation realiza, após o término dos congressos, a publicação em livro das Atas do Congresso Marx International, i.e. dos artigos de seus principais aliados intelectuais, sustentadores das premissas franco-gramscianas.

Abertura e encerramento dos Congrès Marx International são realizadas, em regra, por Jacques Bidet e seus coadjuvantes de maior renome, sendo que Etienne Balibar, Michaël Löwy ou Catherine Samary são, em regra, cogitados pela direção de Actuel Marx para intervirem nesses dois grandes momentos congressuais.

Tome-se, como exemplo, o mais recente Congrès Marx International, i.e. o Congrès Marx International II : O Capitalismo, Críticas, Resistências, Alternativas., que teve lugar entre 30 de setembro e 3 de outubro de 1998.

Nesse congresso, a „Abertura : É Possível Fazer Face ao Capitalismo?“, foi realizada por Jacques Bidet, no dia 30 de setembro de 1998, às 19 hs., na Sala Richelieu.

A „Presidência do Congrès Marx International II : O Capitalismo, Críticas, Resistências, Alternativas.“ – como não poderia deixar de ser – coube a Jacques Texier, o maior expoente da ideologia gramsciana na França de hoje, ideologia essa consistente na correção, atualização e superação do marxismo, na forma do meta-marxismo.

A condução dos trabalhos da „Plenária Geral do Congrès Marx International II“  do dia 3 de outubro de 1998, intitulado Alternativas ao Capitalismo, coube a Catherine Samary, Etienne Balibar e Robin Blackburn.

A „Presidência“ desse Plenário Geral coube a Michaël Löwy, o mais célebre intelectual do SU-QI e da LCR Francesa na atualidade, prefessor sorbonnard crítico-descontrutivo do Manifesto do Partido Comunista e entusiástico colaborador dos preceptores do franco-gramscismo meta-marxista de Actuel Marx.

No quadro desse largo e profundo processo de colaboracionismo doutrinário eclético “trotskysta-gramsciano” em território francês, decidiram, em 2 de dezembro de 1995, os mais célebres teóricos e líderes franceses da Liga Comunista Revolucionária (LCR)  e, consegüintemente, também do Secretariado Unificado da Quarta Internacional (SU-QI), em confraternização e comum acordo com os expoentes do franco-gramscismo meta-marxista de Actuel Marx -  todos eles partisãos ativos, nos dias de hoje, no seio da intelectualidade acadêmica da Universidade Sorbonne de Paris -, estreitar esforços para, juntamente com velhos e novos teóricos do Partido Comunista Francês (PCF), tais como Lucien Sève, Georges Labica, Etienne Balibar e André Tosel, fundarem um imponente projeto teórico-doutrinário e político-ideológico comum, de caráter nacional-francês denominado, nos termos de seus estatutos, Associação Nacional Espaces Marx.  

Os Espaces Marx nasceram, em verdade, a partir da dissolução do Institut de Recherches Marxistes(IRM), i.e. Instituto de Pesquisas Marxistas, criado, outrora, pelo PCF visando a prestar-lhe assistência intelectual e doutrinária em questões concernentes à deturpação e à desnaturação refinada e aparentemente científico-analítica da doutrina de Marx e Engels, manifestando-se, durante décadas de colaboracionismo de classe, em publicações e colóquios, nos mais diversos matizes burocrático-contra-revolucionários e oportunistas, desde o stalinismo de Thorez e Politzer ao chauvisnimo ocidental euro-comunista de Georges Marchais.

Assim, os Espaces Marx surgiram após a afirmação da pretensão dos intelectuais do PCF no sentido de ser necessário inovar doutrinariamente no domínio do marxismo, mediante uma confrontação pluralista com correntes políticas susceptíveis e abertas à sua perspectiva teórico-revisionista.

Em 18 de junho de 1994, no quadro de uma assembléia largamente eclético-pluralista, selou-se um compromisso de criação de um espaço de debates e de produção literária de matiz colaboracionista „marxista-mao-stalinista-reciclado-democrático-humanista-gramsciano-trotskysta-mandelista“, visando à renovação, à correção, à atualização e à superação dos princípios de Marx e Engels, em uma “nova marcha de criatividade política“.[37]

 

 

Na assembléia em referência de 1994, os Espaces Marx, em processo de gestação existencial, declararam, expressamente :

 

„Novas relações com o PCF, fundadas na parceria, repousando em um contrato explícito, revelaram-se possíveis, assegurando, sem equívoco, a autonomia da Associação a ser criada(i.e. a Associação Nacional Espaços Marx).

A plena soberania dos Espaços Marx decorre de seus objetivos, democraticamente elaborados, e ela lhe confere a completa responsabilidade por seus atos.

Ela não implica a renúncia a uma ligação fecunda com o PCF nas condições previstas na Carta de Estatutos.

Na mesma base, a Associação procurará, igualmente, outros parceiros e deseja estabelecer relações com outros agrupamentos, centros de reflexão, revistas etc.

Nos trabalhos preparatórios à criação da Associação, uma questão de primeira importância foi a de estabelecer sua relação com o pensamento de Marx.

A Carta de Estatutos, que foi proposta e adotada, traduz, claramente, essa relação, inscrevendo-o em uma assimilação crítica e aberta de um pensamento cuja fecundidade, dado que não se enrijece em um dogmatismo estéril, é própria a estimular elaborações novas.

Essa referência exprime muito bem uma vontade de cooperação específica com os que se reclamam igualmente defensores do pensamento de Marx.

A formulação traduz, explicitamente também, uma preocupação de pluralismo e abertura a outros pensamentos inovadores e progressistas, incluindo aqueles que não reivindicam Marx. 

A denominação da nova estrutura não constitui uma mudança formal, mas a afirmação da diferença de concepção em relação ao IRM e a nova identidade da Associação.“[38]

 

 

 

A partir desse momento, constituiu-se um Comitê Provisório incumbido de assegurar a transição organizativa do IRM aos Espaces Marx.

Tal Comitê Provisório foi encabeçado, então, desde logo, pelos seguintes doutrinadores franceses, que se reclamam defensores do pensamento de Marx e Engels : Jacques Texier e Tony Andréani, em representação dos franco-gramscianos meta-marxistas de Actuel Marx, Francette Lazard, Lucien Sève e Georges Labica, em representação respectivamente da intelectualidade mao-stalinista reciclada, democrático-humanista e gramsciana do PCF, Michaël Löwy, Catherine Samary e Daniel Bensaϊd, enquanto máximos expoentes teóricos da LCR Francesa e do Secretariado Unificado da Quarta Internacional(SU-QI).

Uma monumental iniciativa empreendida pelos Espaces Marx, dirigidos a partir de então por essas forças políticas retro-mencionadas, reunidas em um assim-denominado Comitê de Direção, foi a organização, em maio de 1998, do Encontro Internacional : o Manifesto Comunista 150 Anos Depois : Qual Alternativa para o Capitalismo ? Qual Emancipação Humana ?, realizado em Paris.[39]

 

 

Em um artigo de preparação e convocação desse Encontro Internacional de Maio de 1998, Francette Lazard, um dos mais expressivos membros da atual direção do Partido Comunista Francês(PCF), assinalou o caráter que, posteriormente, haveria de revestir a pespectiva de trabalhos dos Espaces Marx, no curso dos últimos dois anos :

 

„Mais vale não participar. Contudo, ....

  a dinâmica de preparação do Encontro Internacional previsto para maio próximo em Paris, por ocasião do 150° Aniversário do Manifesto do Partido Comunista, constitui, em si mesmo, uma experiência repleta de interesse.

„Tantos velhos amigos e antigos inimigos“ ...

Não é, em si, o número de personalidades reunidas, na França e em mais de sessenta países, que cria o evento, mas sim o fato de que 150 anos após a publicação do Manifesto, pela primeira vez desde as grandes fraturas de 1914/1917, todas as correntes de pensamento que, de um modo ou de outro, enraizam-se na história secular dos movimentos de emancipação propoem-se juntas a confrontar suas análises, suas reflexões críticas e suas visões.

Nós somos os antípodas de uma comemoração acadêmica ou emblemática.

As personalidades associadas no patrocínio do projeto vêm de todos os continentes, dos mais diversos horizontes progressistas.

Elas diferem por suas trajetórias e por suas motivações, seja no campo da pesquisa universitária, seja no engajamento social e político.

Elas são comunistas, socialistas ou sociais-democrátas, personalidades de esquerda ou de extrema-esquerda, do movimento social, sindicalistas, ecologistas, teólogos da libertação etc. 

De um país a outro, na diversidade de situações, o projeto do Encontro Inrternacional, de maio de 1998, suscita ecos múltiplos, em ressonância com as iniciativas que marcarão, um pouco em todos os lugares, esse 150° Aniversário na próxima primavera.“[40] 

 

 

 

No contexto dessa efusiva, expansiva e crescente colaboração dos dirigentes da LCR Francesa e do SU-QI com téoricos franco-gramscianos meta-marxistas de Actuel Marx, neo-stalinistas e democrático-humanistas do PCF, tais forças políticas e intelectuais reunidas, agora, nos Espaces Marx deram criação à sua contra-parte de dimensão mundial, os Espaces Marx Réseau International. Pour Une Construction Citoyenne du Monde, i.e. os Espaços Marx e os Espaços Marx Rede Internacional. Em favor da Construção de uma Cidadania do Mundo.

Os Espaces Marx Réseau International. Pour Une Construction Citoyenne du Monde conformam-se, presentemente, com uma autêntica organização político-doutrinária internacional, destinada a intervir, em escala mundial, a fim de perpetuar suas pretensões de inovação, correção, atualização e superação do pensamento de Marx e Engels, Lenin e Trotsky, consubstanciados nas lições da Revolução de Outubro e nos documentos leninistas-trotskystas da III e IV Internacionais.   

Seu órgão jornalístico chama-se „Bulletin Réseau International“, i.e. Boletim Rede Internacional.[41]

 

 

Nos dias de hoje, os Espaces Marx Réseau International. Pour Une Construction Citoyenne du Monde participam ativamente, mediante o envio de seus teóricos, requisitados formalmente sobre a base de convites, nos colóquios realizados na Festa de l’Humanité, do PCF, nos encontros do Foro Marxista, do Partido da Democracia Socialista(PDS) da Alemanha, nos debates do Forum Europa Social de Frankfurt a.M., de Élisabeth Gauthier, nas conferências do Coletivo Rosa Luxemburg de Berlim, nas produções intelectuais realizadas pelos economistas alemães da Revista „Sozialismus“ e do jornal Junge Welt, assim como, em todo mundo, onde palestras e eventos de universidades, livrarias, organizações políticas, associações de trabalhadores, são organizados, com a pretensão de debaterem a perspectiva de um futuro socialista para a humanidade, com base em uma fundamentação doutrinária no pensamento original de Marx.

Seja sob o feitio mais formalmente estruturado do Comitê Israeliense Espaces Marx, dos Espaços Marx Brasil, dos Espaces Marx International Quebec, dos Espaces Marx Hungria, dos Espai Marx, da Catalunha etc. etc., ou mesmo sob a forma de revistas, jornais e intelectuais universitários presentes em inúmeros países do mundo, colaboradores de seu projeto doutrinário, tal como, exemplificativamente, o Correio da Cidadania, o Deputado Milton Temer, do PT, os professores universitários Ricardo Antunes, Osvaldo L. A. Coggiola(PO de Altamira), Frei Betto, Leonardo Boff, Oscar Niemeyer, João Machado(DS do SU-QI), no Brasil, o Rethinking Marxism da University of Massachusetts, nos EUA, comandado por Antonio Callari, Stephen Cullenberg, Jack Amariglio, David Ruccio e Etienne Balibar, ou ainda o grupo de iniciativa de B. Kagarltsky, T. Timofeev e A. Galkin, na Rússia, os Espaces Marx Réseau International. Pour Une Construction Citoyenne du Monde divulgam sua doutrina preponderamentem franco-gramsciana de desnaturação e deformação do marxismo, em nome do marxismo, tal como a veicula, presentemente, da maneira mais cabal, os principais dirigentes políticos e intelectuais do Secretariado Unificado da Quarta Internacional (SU-QI), em sua trilha de crescente abandono das tradições proletárias-revolucionárias de Lenin, Sverdlov e Trotsky.

Sob a iniciativa dos Espaces Marx realizar-se-á, entre os dias 30 de novembro e 2 de dezembro de 2000, um Encontro Internacional em Paris, na Grande Halle de la Villette, sob a consigna „Por uma Construção Cidadã do Mundo. Um Ano após Seattle.“

O Comitê de Prepação desse Encontro Internacional é composto por : Jacques Texier e Tony Andréani, em representação dos franco-gramscianos meta-marxistas de Actuel Marx, Lucien Sève e Georges Labica, em representação da intelectualidade mao-stalinista reciclada e democrático-humanista do PCF, Michaël Löwy e Daniel Bensaϊd, enquanto máximos expoentes teóricos da LCR Francesa e do Secretariado Unificado da Quarta Internacional(SU-QI).[42]

 

 

Na convocatória do Encontro Internacional em destaque, pode-se ler, precisamente, o seguinte :

 

„O vértice de Seattle, há um ano atrás, constitui um giro e um trampolim.

Giro para a nova capacidade de, em nível planetário, opor-se a um processo que muitos pensavam ser inevitável.

Trampolim, para a construção de outras lógicas.

Engajados nessa via, na diversidade de nossas convicções e de nossas mobilizações, o que nos motiva é a importância do trabalho necessário para inventar as alternativas à atual mundialização neo-liberal e as traduzir em proposições concretas.

Porque há urgência : a mercantilização de todos os domínios da vida, em cada rincão do planeta, provoca devastações que nós não aceitamos.

Reunidos em coletivo constituído de 10 organizações, fundações, associações, revistas, jornais, tomamos a iniciativa de convidar a vir a Paris, nos dias 30 de novembro, 1° e 2° de dezembro de 2000, todos aqueles e aquelas que, no mundo, descontentes, indignados, revoltados, procuram outras possibilidades para o desenvolvimento humano, seja qual for sua própria perspectiva : regulação, humanização, superação do capitalismo.

Em uma palavra : todas aquelas, todos aqueles que através de engajamentos filosóficos, políticos e cívicos, evidemente pluralistas, procuram inventar um outro futuro.

Essa diversidade de abordagens de cada um permitirá a esse encontro ser fecundo, constituindo-se em um momento decisivo depois de Seattle, dinamizando, pelos laços tecidos e riqueza dos debates e contribuições sobre as alternativas possíveis, a contra-ofensiva dos povos contra o neoliberalismo.

O desenvolvimento das mobilizações incita, agora, a tomar iniciativa sobre o terreno das proposições.      

Venha a Paris, a fim de inter-cambiarmos nossas experiências e nossas idéias, em favor da construção democrática e cidadã do mundo.“[43] 

 

 

 

 

EDITORA DA ESCOLA DE AGITADORES E INSTRUTORES

“UNIVERSIDADE COMUNISTA REVOLUCIONÁRIA J. M. SVERDLOV”

PARA A FORMAÇÃO, ORGANIZAÇÃO E DIREÇÃO MARXISTA-REVOLUCIONÁRIA

DO PROLETARIADO E SEUS ALIADOS OPRIMIDOS

MOSCOU – BUENOS AIRES - SÃO PAULO – PARIS

 

 

 



[1] Acerca do tema, vide TROTSKY, LÉON.  Agonia Kapitalizma i Zadatchi IV Internatsionala. Mobilizatsia Mass Vokruk Pererrodnyrr Trebovanii kak  Podgotovka k Zavoievanniu Vlasti (A Agonia do Capitalismo e as Tarefas da IV Internacional. A Mobilização das Massas em torno de Consignas Transitórias para Preparar a Conquista do Poder), especialmente Pressupostos Objetivos da Revolução Socialista, in : Biulietien Opozitsi Bolschevikov-Lenintsev (Boletim de Oposição Bolchevique-Leninista),  Nr. 66/67, Paris, 1938, pp. 14 e s.

[2] Cf. BENSAÏD, DANIEL. 60 Jahre IV. Internationale (60 Anos da IV. Internacional), in : INPREKORR. Internationale Pressekorrespondenz, Nr. 327/328, Juli/August 1999, pp. supra-referidas.

[3] Cf. IDEM.  ibidem, pp. 20 e 21.

[4] Nesse sentido, vide, sobretudo, MANDEL, ERNST. L’Eurocommunisme est-il l’Exécuteur Testamentaire d’Antonio Gramsci, in: Critique de l’Eurocommunisme. Petite Collection Maspero, Paris : Maspero, 1978, pp. 210 e s.; LÖWY, MICHAËL. La Théorie de la Révolution chez le Jeune Marx, in : Bibliothèque Socialiste, Paris : Maspero, 1970, pp. 224 e s.; IDEM. Notes sur Lukács et Gramsci, in : L’Homme et la Société, Nr. 35/36, Paris, 1974, pp. 79 e s.

[5] A esse respeito, vide, precisamente, BENSAÏD, DANIEL &  ARTOUS, ANTOINE. A L’Ouest Questions de Stratégie, in : Critique Communiste, Nr. 65, Paris : Ligue Communiste Révolutionnaire, 1987, pp. 15 e s.; LÖWY, MICHAËL. Gramsci et Lukács, in : ibidem, pp. 33 e s.; LIGUE COMMUNISTE REVOLUTIONNAIRE. Gramsci : Questions Pour Notre Epoque, in : Critique Communiste, Nr. 65, Paris : Ligue Communiste Révolutionnaire, 1987, pp. 3 e s.  

[6] Sobre esse tema, vide, detalhadamente, MAITAN. LIVIO. Le Marxisme d’Antonio Gramsci, in : Revue Quatrième Internationale, Nr. 24, Paris, 1987, pp. 5 e s.

[7] Acerca do tema, vide, precisamente, TEXIER, JACQUES. Antonio Gramsci, Paris : Seghers, 1966, pp. 187 e s.; IDEM. Sur le Concept de la Société Civile. Gramsci Théoricien des Superstructures, in : La Pensée, Nr. 139, Paris, 1968, pp. 35 e s.; IDEM. Gramsci : Nécessité et Créativité Historique, in : La Nouvelle Critique, Nr. 69, Paris, 1973, pp. 61 e s.; IDEM. Gramsci Sort-Il du Purgatoire ou Va-t-il en Enfer ?, in : ibidem, Nr. 76, 1974, pp. 33 e s.; IDEM. La Grande Défiguration d’Antonio Gramsci, in : La France Nouvelle, Nr. 1.484, Paris, 1974, pp. 27 e s.; IDEM. Gramsci. La Philosophie et la Politique dans le Texte, in : La Pensée, Paris, Nr. 181, 1975, pp. 116 e s.; IDEM. Gramsci, Togliatti et d’Iguanodon. A Propos du Tome I des Ecrits Politiques d’A. Gramsci, in :La Nouvelle Critique, Paris, Nr. 81, 1975, pp. 13 e s.; IDEM. La Spécificité du Matérialisme de Marx et la Critique du Communisme Réformateur in: Materialismes. Raison Présente, Nr. 47, Paris, 1978, pp. 85 e s.; IDEM. Rationalité selon la Fin et Rationalité selon la Valeur dans Les Cahiers de la Prison, in : Actuel Marx, Nr. 4, Paris, 1988, pp. 97 e s.; IDEM. Sur le Sens de „Société Civile“ chez Gramsci, in : Actuel Marx, Nr. 5, Paris, 1989, pp. 50 e s.        

[8] Nesse sentido, vide BIDET, JACQUES. Que Faire du Capital ? Matériaux pour une Refondation, Paris : Klincksieck, 1985, pp. 7 e s.;  IDEM. Théorie de la Modernité. Suivi de Marx et le Marché, Paris : PUF, 1990, pp. 15 e s. No ano passado, surgiu, ainda, o seguinte livro de BIDET, JACQUES. Théorie Générale du Droit, de L’Economie et de la Politique. Actuel Marx Confrontation, Paris : PUF, 1999, pp. 15 e s.  

[9] Vide Cf. TEXIER, JACQUES. Révolution et Démocratie chez Marx et Engels, Paris : Actuel Marx Confrontation – PUF,  1998, p. 362.

[10] Cf. BIDET, JACQUES. Capitalisme, Communisme, Marxisme, Socialisme, in : Actuel Marx Confrontation. Colloque International Sorbonne, 17-18-19 Mai 1990, organisé par la Revue Actuel Marx et l’Istituto Italiano per gli Studi Filosofici, sous la direction de Jacques Bidet et Jacques Texier, Paris : PUF, 1991, p. 24.

[11] Cf. IDEM. ibidem, p. 24.

[12] Cf. IDEM. ibidem, p. 24.

[13] Cf. IDEM. ibidem, p. 25.

[14] Cf. IDEM. ibidem, pp. 25 e 26.

[15] Cf. IDEM. ibidem, pp. 26 e 27.

[16] No que concerne à doutrina idealista-subjetivista, de linhagem sofística, de Kant, acerca da Ética e do Direito, vide, sobretudo, KANT, IMMANUEL. Grundlegung der Metaphysik der Sitten (Fundamentos da Metafísica dos Costumes), Riga : Hartknoch, 1785, pp. 3 e s.; IDEM. Critik der practischen Vernunft (Crítica da Razão Prática), Riga : Hartknoch, 1788, pp. 7 e s.; IDEM. Metaphisische Anfangsgründe der Rechtslehre (Fundamentos Metafísicos Iniciais da Doutrina do Direito) (1797), in : Immanuel Kant. Metaphysik der Sitten, Hamburg : Felix Meiner, 1922, pp. 5 e s.

[17] Acerca da doutrina filosófico-política social-liberal e idealista-subjetivista de John Rawls, vide, sobretudo, RAWLS, JOHN. A Theory of Justice, Cambridge-Massaschussetts : Belknap,  1971, pp. 21 e s.; IDEM. Liberty, Equality and Law (Liberdade, Eqüidade e Direito), Salt Lake City : Univ. Of Utah Press, 1987, pp. 5 e s.

[18] Observo ao leitor que a Alemanha de hoje recebe, em verdade, todos os impactos da doutrina francesa democrático-socialista-ecológica-mercantil-humanizada dos ideólogos sorbonnards, devolvendo-lhes uma contribuição metodológica de grande importância epistemológica, fundada na perspectiva político-prática da social-democracia-ecológica-chauvinista. Tal fenômeno pode ser constatado pela inquestionável influência do pensamento de Jürgen Habermas nas universidades e junto aos intelectuais franceses. Na França, esse impacto habermasiano repercute, decisivamente, entre os professores dos mais diferentes matizes teóricos da Universidade de Paris - Sorbonne, bem como entre os mais renomados ideólogos dos partidos e agrupamentos de esquerda. Na Alemanha, a primazia do tema de defesa da „cidadania“ ou da „justiça social“ contra os ataques do neo-liberalismo do capitalismo imperialista remundializante assume particular forma, presentemente, no debate em torno da “democracia” e da “legitimidade do poder e da soberania”, enquanto valores universais. No contexto dessa última temática, os argumentos gravitam, sobretudo, em torno do ”consenso político dos agentes sociais“ - i.e. da colaboração político-prática dos representantes políticos alemães, burgueses-imperialistas, neoliberais e sociais-liberais-verdes, com os dirigentes sindicais, provenientes preponderantemente da aristocracia da classe trabalhadora alemã  -, visando ao represamento das ações das massas exploradas e oprimidas da Alemanha no campo da legalidade democrático-constitucional das instituições sócio-estatais burguesas. O caráter específico da sociologia e da filosofia alemã da atualidade resplandece, nesse terreno, e faz com que, claramente, o papel político-especulativo de Jürgen Habermas adquira uma amplitude significatica muito atual. Isso possui, evidentemente, o seu fundamento : Habermas é o intelectual mais logicamente preciso e acabado, dos dias de hoje, no que tange à questão da perspectiva de colaboração de classes em uma „sociedade global“, ao ponto de poder irradiar luzes de sua doutrina teórica não apenas ao cenário da luta de classes da Alemanha, senão ainda para todos os países do mundo. Precisamente por isso, Habermas segue sendo muito requisitado e ouvido por grandes políticos burgueses-europeus da atual coalizão alemã “Vermelha-Verde”, tal como designada pelo público alemão. Afirma-se que nenhum grande e significativo debate, existente desde os anos 60, ocorreu sem a participação e a influência ativa desse „republicano liberal de esquerda“, tal como se costuma qualificá-lo na Alemanha. Mais recentemente, Habermas tornou-se um dos principais entusiastas e defensores teóricos do bombardeamento da OTAN na Iugoslávia e do emprego das tropas imperialistas alemães no conflito, mesmo continuando a ser, paradoxalmente, membro da Academia Sérvia de Ciências. A seguir, quando começaram a se desenhar os protestos contra a guerra, entre setores da população alemã, Habermas optou, intermediariamente, pela defesa de uma declaração unilateral de paz, dando suporte racionalístico à política chauvinista dos Verdes da Alemanha. O Ministro Verde das Relações Externas da Alemanha, Joschka Fischer, baseando-se nos posicionamentos de Habermas, fundamentou, então, a participação da Alemanha na Guerra de Kosovo referindo-se à fórmula habermasiana do “trauma de Auschwitz”. Tal fórmula serve, presentemente, de legitimação teórico-racionalística para toda agressão imperialística alemã contra tentativas de governos de identidade nacionalístico-totalitária dos países atrasados e recolonizados. Presentemente, tal teoria foi redimensionada por Habermas como parte de seu conceito de „Verfassungspatriotismus(i.e. patriotismo constitucional, em língua dos seres humanos mortais chauvinismo burguês-imperialista, veiculado sob a forma da socia-democracia-ecológica)“ em contraste com o conceito de nacionalismo popular. Esse „patriotismo constitucional“, segundo Habermas, incorpora um posicionamento ”liberal-social” que deve defender o “Estado Social, moralmente fundado e esclarecido”, em face das agressividades do “nacionalismo obscuro” e da “anarquia das leis selvagens do capitalismo”. Tal „patriotismo constitucional“ é a defesa, também, segundo Habermas, da fusão da democracia com o ideal de socialismo, i.e. de um socialismo democrático... A lógica de Habermas é, entretanto, perfeitamente compatível com entrecortes supra-partidários ecléticos e conciliacionistas. Seu único grande embate histórico deu-se com o dirigente estudantil do Maio Alemão de 1968, Rudi Dutschke, a quem designou, caluniosamente, de „fascista de esquerda“, por pretender esse último, baseado em uma orientação política marcusiana-anarquista, conduzir um levante anti-autoritário, anti-repressivo e libertário contra as universidades e o Estado Alemão, fundando-se em mobilizações de massas e ações diretas de luta. O movimento estudantil e a oposição extra-parlamentar da Alemanha de 68 viu, assim, em Habermas, de início, um aliado sedutor, porém, a seguir, um grande inimigo. Em virtude de seu distanciamento de toda perspectiva de ruptura da ordem jurídico-democrática e liberal burguesa da Constituição Alemã de Bonn e rejeição de toda violência revolucionária, produziu-se uma cisão entre o movimento de massas encabeçado por Dutschke e os posicionamentos do célebre Professor de Frankfurt, dotado de renome mundial. A subseqüente consagração mundial de Habermas operou-se, a seguir, à custa sobretudo do chauvinismo burguês-imperialista, veiculado sob a forma da social-democracia-ecológica. Acerca do tema, vide, antes de tudo, HABERMAS, JÜRGEN. Die postnationale Konstellation und die Zukunft der Demokratie (A Constelação Pós-Nacional e o Futuro da Democracia), Frankfurt a.M. : Suhrkamp, 1998, pp. 15 e s.; IDEM. Der philosophische Dirkurs der Moderne (O Discurso Filosófico do Moderno), Frankfurt a.M. : W.G. Uni-Buchdruck., 1985, pp. 21 e s.; HABERMAS, JÜRGEN & LUHMANN, NIKLAS. Theorie der Gesellschaft oder Sozialtechnologie – Was leistet die Systemforschung ? (Teoria da Sociedade ou Tecnologia Social – O que a Investigação Sistêmica proporciona ?), Frankfurt a.M. : Suhrkamp, 1971, pp. 114 e s.; HABERMAS, JÜRGEN. Technik und Wissenschaft als Ideologie (Técnica e Ciência como Ideologia), Frankfurt a.M. : Suhrkamp, 1968, pp. 17 e s. Acerca da qualificação habermasiana de Rudi Dutschke enquanto um „fascista de esquerda“, vide, precisamente, DUTSCHKE, RUDI. Geschichte ist Machbar. Texte über das herrschende Falsche und die Radikalität des Friedens (A História é Passível de Ser Feita. Textos sobre o Falso Dominante e a Radicalidade da Paz), Berlim : Wagenbach, 1980, pp. 9 e s.

[19] Cf. BIDET, JACQUES. Démocratie et Modernité. Jalons pour une Théorie Générale, in : Les Paradigmes de la Démocratie. Actuel Marx Confrontation. Colloque du CNRS, 29-30 Mai 1990, organisé par la Revue Actuel Marx et l’Université de Paris X - Nanterre, sous la direction de Jacques Bidet, Paris : PUF, 1994, pp. retro-citadas. No que concerne à lógica discursivo-comunicacional de Habermas, idolatrada pelos meta-marxistas franco-gramscianos, Jacques Bidet e Jacques Texier, cabe observar que essa última coincide, em grande parte, com aquelas de Karl-Otto Apel e Lawrence Kohlberg, no que concerne à idéia da teoria idealista-subjetivista dialógica do consenso da verdade, do correto e da ordem social. Porém, Habermas ataca o posicionamento de Apel de defesa de uma pragmática transcedental, precisamente por apoiar-se Apel em figuras de pensamento superadas : defesas de verdades declaradas e de experiências que atestam a certeza dos fatos. Contra o sentido apriorístico de uma dedução transcendental, Habermas apoia-se na hipótese de que para uma argumentação teórico-discursiva não subjaz nenhuma alternativa previamente reconhecível. Nesse sentido, Lawrence Kohlberg teria, segundo Habermas, plena razão em abrir a perpectiva de construção de uma moral pós-convencional. Assim, o principal e mais conseqüente suporte lógico-epistêmico da corrente internacional colaboracionista da atualidade – aquilo que está na base da lógica de Stanley Fisher que, presentemente, convoca os sindicatos de todo mundo a colaborarem com os planos do FMI em defesa da luta contra o desemprego – é o pensamento de Jürgen Habermas de disposição permanente ao diálogo e à colaboração de classes, em busca do consenso. Nesse quadro, a conformação de uma certa “cidadania” e de uma certa “democracia”, cujo conteúdo é apriori indefinido ou apenas pós-convencional, dependeria sempre de um processo dialógico mantido entre os sujeitos sociais, fundado não em uma ética de convencimento, mas sim de responsabilidade, i.e. na qual os negociadores devem ceder cada qual um tanto para que seja possível o pacto e o entendimento social. Destarte, os pensadores franceses e alemães modernos e contemporâneos, desde Kant à Durkheim, desde Rousseau à Max Weber, parecem, nesse sentido, petrificados, inflexíveis e dogmatizantes diante de Habermas, particularmente por terem utilizado um método fenomenológico subjetivo essencialmente monológico. Também Marx e Engels, são, aos olhos de Habermas, vítimas de um objetivismo monológico, ainda que seu materialismo histórico possa ser reaproveitado, desde que ... reconstruído. Habermas, entre os últimos herdeiros do “marxismo culturalista de Lukács”, do “fenomenologismo de Husserl” e do “existencialismo de Heidegger”, formou-se no âmbito da ascensão e crise da Escola Frankfurt, mantendo-se dessa última prudentemente distante. Assim, Habermas produziu um método de abordagem téorica que, se, em verdade, partiu de uma base subjetivista neo-kantista, não aponta para uma mera perspectiva de subjetividade solipsista, típica dos pensadores da filosofia clássica alemã e dos iluministas e enciclopedistas franceses. Habermas filiou-se a uma concepção que, além de todo seu idealismo-subjetivista dialógico, utiliza, amplamente, a teoria dos jogos de linguagem de Ludwig Wittgenstein, contidos no livro desse último intitulado „Investigações Filosóficas“, onde a assim-chamada “tábua de verdades” não é positiva ou objetivamente (cientificamente) verificada, mas sim inter-subjetivamente construída, dependendo da comunicação dos representantes dos agentes, classes e grupos sociais.  A presente consagração mundial de teorias tais como a de Habermas é, entretanto, a comprovação histórica mais patente da atual agonia do capitalismo e da crise histórica da direção revolucionária do proletariado. Isso é correto afirmar-se porque a filosofia fenomenológica idealista-subjetivista de Edmund Husserl, da qual Habermas é também um direto dependente e à qual está umbilicalmente ligado, é produto de uma situação de crise extrema das relações sociais do capitalismo em decomposição. Por um lado, as forças ideológicas do imperialismo capitalista, representadas, presentemente, na voz de Stanley Fisher(FMI), Gerhard Schröder(Social-Democracia Alemã) e Joschka Fischer(Verdes Alemães), não recorrem, atualmente, à lógica da teoria habermasiana por sincero reconhecimento científico de uma corrente histórica sócio-filosófica. Essas forças governam, antes de tudo e privilegiadamente, com base em suas verdades e concepções teóricas, com base em sua racionalidade intrumental monológica, que procuram incutir nas consciências das massas trabalhadoras exploradas e oprimidas como verdades universais, através de um processo de dominação cultural-ideológica. Elas governam, prioritariamente, com os instrumentos lógicos do positivismo e do funcionalismo. Por outro lado, é mister destacar que o método fenomenológico husserliano teve seu momento histórico de nascimento no quadro da instável República de Weimar, precisamente quando disputavam os poderes stalinistas e nazistas, em face do esgotamento político das forças sociais-democráticas e liberais. Uma atmosfera de situação revolucionária, de conflito social acirrado acerca do desenlace futuro, conduzia aos mais expressivos intelectuais alemães à elaboração de teorias que fundamentassem a esperança de um procedimento de negociação dialógico entre os diversos representantes da burguesia e os da classe operária revolucionária, de modo a permitir a constituição de governos de coalizão e frentes populares, visando a uma transição pactuada à democracia burguesa que impedisse a eclosão de um desate dialético-materialista. Nesse quadro, as verdades universais haviam de deixar de ser positivamente determinadas, para dependerem exclusivamente da interação de uma comunidade dos sujeitos sociais hostis em luta aberta. Visto em perspectiva histórica, porém, já por sua essência eminentemente idealista – formulada com base na análise formalística da geometria -, o método fenomenológico husserliano – de que se vale Habermas presentemente - não conseguiu, entretanto, impedir polarizações, quando a possibilidade de comportamento comunicacional rompeu-se, no quadro das irrupções revolucionárias e contra-revolucionárias européias. Na história da filosofia alemã dos anos 20 e 30, Martin Heidegger, enquanto sucessor de Edmund Husserl, e Carl Schmitt, enquanto herdeiro do decisionismo heideggeriano, representaram a ruptura pela extrema direita e a tentativa de legimitação razoável e racional da irracionalidade e da irrazoabilidade do nacional-socialismo, em plena ascensão e fortalecimento. A ruptura pela esquerda da colaboração de classes desse processo comunicacional, entretanto, foi se produzindo, inconseqüentemente, na Alemanha, através da obra de György Lukács, que, levando os elementos da metodologia husserliana e do culturalismo neokantista para o interior da doutrina revolucionária marxista, debilitaram-no, desacreditando a política de Lenin e Trotsky sob o rótulo de „positivismo marxista“, i.e. anti-culturalista e anti-fenomenológico, tal como resulta da principal obra política de Lukács „História e Consciência de Classes“. O renascimento atual da lógica fenomenológica na abordagem de Jürgen Habermas presta-se, assim, a servir de elemento teórico-racional ao colaboracionismo de classes em nível nacional, supranacional europeu e internacional e, em um estágio social crescentemente polarizado, ao apoio das políticas de conformação das frentes populares, que detenham o ascenso das revoluções dos trabalhadores e demais proletários, bem como à consagração de sua ditadura de classe sobre as forças capitalistas. Acerca do tema, vide, sobretudo, HABERMAS, JÜRGEN. Theorie des kommunikativen Handels (Teoria do Agir Comunicativo), Frankfurt a.M. : Suhrkamp, 1981, pp. 7 e s.; IDEM. Zur Rekonstruktion des Historischen Materialismus (Acerca da Reconstrução do Materialismo Histórico), Frankfurt a.M. : Suhrkamp, 1976, pp. 11 e s.; WITTGENSTEIN, LUDWIG. Philosophische Untersuchungen (Investigações Filosóficas), Oxford : Blackwell, 1953, pp. 11 e s.; HUSSERL, EDMUND. Die Phänomenologie und die Fundamente der Wissenschaften (A Fenomenologia e os Fundamentos das Ciências), Hamburg : Meiner, 1986, p. III e s.; APEL, KARL-OTTO. Dirkurs und Verantwortung. Das Problem des Übergangs zur postkonventionellen Moral (Discurso e Responsabilidade. O Problema da Transição para uma Moral Pós-Convencional), Frankfurt. a.M.: Suhrkamp, 1988, pp. 19 e s.; KOHLBERG, LAWRENCE.  Die Psychologie der Moralentwicklung (A Psicologia do Desenvolvimento Moral), Frankfurt a.M., 1995, pp. 13 e s.; LUKÁCS, GYÖRGY. Geschichte und Klassenbewußtsein (História e Consciência de Classes), in :  Georg Lukacs Werke, Vol. 1, Berlim-Spandau : Benseler, 1974, pp. 15 e s.

[20] Cf. TEXIER, JACQUES. Le Monde Moderne et l’Idée du Communisme, in : Actuel Marx Confrontation. Colloque International Sorbonne, 17-18-19 Mai 1990, organisé par la Revue Actuel Marx et l’Istituto Italiano per gli Studi Filosofici, sous la direction de Jacques Bidet et Jacques Texier, Paris : PUF, 1991, pp. retro-mencionadas.

[21] Cf. IDEM. Révolution et Démocratie chez Marx et Engels, Paris : Actuel Marx Confrontation – PUF,  1998, p. 362.

[22] Cf. IDEM. ibidem, p. 363.

[23] Cf. BENSAÏD, DANIEL. 60 Jahre IV. Internationale(60 Anos de IV Internacional), in : INPREKORR. Internationale Pressekorrespondenz, Nr. 327/328, Juli/August 1999, pp. 20 e 21.

[24] Vide LENIN, VLADIMIR I. Rede bei der Eröffnung des Kongresses 2. März. I Kongreß der Komm. Internationale (Discurso na Abertura do Congresso de 2 de Março. I Congresso da Internacional Comunista), in : W. I. Lenin Werke, Vol. XXVIII (De Julho de 1918 à Março de 1919), Berlim, 1959, p. 469. Destaque-se, entretanto, à guisa de exemplo, entre os diversos e renomados textos de Rosa Luxemburg, aquele intitulado E Pela Terceira Vez o Experimento Belga, vindo à luz já em 4 de junho de 1902, quando essa autora teve a oportunidade de escrever, de modo incorrumptivelmente claro, contra os legalistas belgas, i.e. Émile Vandervelde e outros : „Entretanto, não por predileção às ações violentas ou ao romantismo revolucionário devem os partidos socialistas, mais cedo ou mais tarde, estar preparados também para embates violentos com a sociedade burguesa, em casos em que nossas aspirações se direcionem contra os interesses vitais das classes dominantes, senão em razão também da amarga necessidade histórica. O parlamentarismo enquanto meio de luta político da classe trabalhadora, individualizador do espírito, é tão fantástico e, em primeira linha, reacionário, como o é a greve geral, individualizadora do espírito, ou a barricada, individualizadora do espírito. Evidentemente, a revolução violenta é, nas condições atuais, um meio de dupla-face, aplicável de modo extremamente difícil. E podemos esperar que o proletariado apenas fará uso desse meio quando se apresentar o único caminho adequado para sua implementação e, evidentemente, apenas em condições em que a situação política de conjunto e a relação de forças assegurem, mais ou menos, a probabilidade de êxito. Porém, a concepção clara da necessidade da aplicação da violência, seja nos episódios individuais da luta de classes seja para a conquista definitiva do poder de Estado é nisso, de antemão, imprescindível. Ela representa aquilo que consegue conferir também à nossa atividade legal, pacífica, a apropriada ênfase e efetividade.“ Cf. LUXEMBURG, ROSA.  Und Zum Dritten Male das Belgische Experiment (E Pela Terceira Vez o Experimento Belga)(4 de Junho de 1902) , in : Rosa Luxemburg Gesammelte Werke, Vol. ½, Berlim, 1972, p. 247.

[25] Cf. IDEM. Dem Andenken des „Proletariat“ (Em Lembrança do „Proletariado“)(1903), in: ibidem, p. 317. Acerca de W. Liebkencht, vide LIEBKNECHT, WILHELM. Zukunftstaatlisches (Coisas do Estado Futuro), in : Cosmopolis, Berlim, 1898, pp. 218 e 219.

[26]  Com efeito, acerca do tema, Luxemburg teve a oportunidade de escrever, criticamente, contra Lenin, Trotsky e os bolcheviques, em sua celebrizada Acerca da Revolução Russa, de Junho de 1918  : „A consigna sacada pelos bolcheviques : imediato apossamento e repartição do solo e da terra pelos camponeses teve, precisamente, de atuar em sentido oposto. Ela não representa não apenas nenhuma medida socialista, senão ainda corta o caminho para uma tal medida, ela produz em face da transformação das relações agrárias, em sentido socialista, dificuldades insuperáveis(p. 343). ... A Reforma Agrária de Lenin criou para o socialismo no campo uma nova camada popular poderosa de inimigos. Nisso, os bolcheviques possuem parte de culpa. Essas dificuldades objetivas da situação, os próprios bolcheviques aguçaram, em grande medida, através de uma consigna, que lançaram no primeiro plano de sua política : o assim-chamado Direito de Auto-Determinação das Nações ou, o que se esconde debaixo dessa frase na realidade : a decomposição estatal da Rússia. ... De início, embate-se contra a estultice e a rígida conseqüencia com que Lenin e seus companheiros atrelaram a essa palavra de ordem o fato de que se situam tanto em crassa contradição com o seu centralismo da política, apregoado em outros momentos, quanto em relação à posição que assumiram em face dos demais fundamentos democráticos.  Enquanto demonstram um desprêzo frio relativamente à Assembléia Constituinte, ao Direito Geral Eleitoral, à Liberdade de Reunião e de Imprensa, em suma, relativamente a todo o aparato das liberdades fundamentais democráticas das massas populares (p. 346) que formam, todas juntas, o „Direito de Auto-Determinação“ na própria Rússia, tratam o Direito de Auto-Determinação das Nações enquanto um nó górgio da política democrática, em amor ao qual todos os pontos de vista práticos da crítica real deveriam silenciar. Enquanto eles não se permitiram minimamente influenciar pelo plebiscito da Assembléia Constituinte na Rússia – um plebiscito conduzido na base do Direito Eleitoral Geral e em total liberdade de uma República Popular -, e, dirigidos por ponderações críticas insensatas, declararam, simplesmente, ser nulo e anulado seus resultados, combateram eles, em Brest, pelo „plebiscito“ das nações estrangeiras da Rússia acerca de sua apartenência estatal, enquanto verdadeiro guardião de toda liberdade e democracia, enquanto quintessência inadulterada da vontade popular e a instância máxima decisiva na questão do destino político das nações.(p. 347)“ Cf. LUXEMBURG, ROSA. Zur Russischen Revolution (Acerca da Revolução Russa) (Junho de 1918), in : Rosa Luxemburg Gesammelte Werke, Vol. 4, Berlim, 1972, pp. retro-mencionadas.

[27] Acerca do tema, vide, p.ex., LENIN, VLADIMIR I. Außerordentlicher Gesamtrussischer Eisenbahnerkongreß (Congresso Extraordinário de Toda Rússia dos Ferroviários)(13 de Janeiro de 1918), in : W. I. Lenin Werke, Vol. XXVI, Berlim, 1962, p. 489 e s.; IDEM. Die Dritte Internationale und ihr Platz in der Geschichte(A III Internacional e Seu Lugar na História)(15 de Agosto de 1919), in : ibidem, Vol. XXIX, pp. 299 e s.; LUNATSCHARKY, ANATOLY. Jakov Michailovitch Sverdlov(Tradução para a Língua Portuguesa de Emil von München), in : Textos sobre a Moral Revolucionária de J. M. Sverdlov, Grande Organizador da Revolução Proletária Russa e Representante da Primeira República Soviética Socialista, São Paulo-Munique-Paris: Editora Sverdlov para a Organização Socialista-Revolucionária dos Trabalhadores, 4 de Agosto de 1999.

[28] Cf. LUXEMBURG, ROSA. Zur Russischen Revolution (Acerca da Revolução Russa) (Junho de 1918), in : Rosa Luxemburg Gesammelte Werke, Vol. 4, Berlim, 1972, pp. retro-mencionadas.

[29] Cf. LENIN, VLADIMIR I. Zametki Publitsista. O Voskhojdenii na Vysokie Gory, O Vrede Unynia, o Pol’zie Torgovli, Ob Otnoshenii k Men’shevikam i.t.p. (Anotações de um Publicista. Sobre a Subida de uma Alta Montanha, a Desgraça do Esmorecimento, a Utilidade do Comércio, a Atitude em face dos Mencheviques etc)(Fevereiro de 1922), Parte 3: Ob Oxote na Lis – O Levi, O Serrati (Agarrando Raposas – Levi e Serrati), in: ibidem, Vol. 44, pp. 419 e s.  

[30] Vide MANDEL, ERNST & VERCAMMEN, FRANÇOIS. Oktober 1917 - Staatsreich oder Soziale Revolution? Zur Verteidigung der Oktoberrevolution (Outubro de 1917 – Golpe de Estado ou Revolução Social. Em Defesa da Revolução de Outubro), Karlsruhe: Neuer ISP Verlag, Agosto de 1993, pp. 7 e s.

[31] Cf. TONDEUR, ALAIN & VERCAMMEN, FRANÇOIS. Réinventer l’Espoir. Un Socialisme de la Libération pour le XXème Siècle, Bruxelles : Fondation Léon Lesoil, 1993, p. 67.

[32] Cf. IDEM. ibidem, p. 69.

[33] Vide ainda contra a falsificação empreendida pelo SU-QI e de Actuel Marx no tocante ao perfil revolucionário de Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht, esses últimos defensores implacáveis da derrubada violenta da burguesia e edificação da Ditadura do Proletariado, sobretudo, LENIN, VLADIMIR I. Rede Anläßlich der Ermordung Luxemburgs und Liebknechts (Discurso Por Ocasião do Assassinato de Luxemburg e Liebknecht)(19 de Janeiro de 1919), in : W. I. Lenin Werke, Vol. XXVIII, Berlim, 1962, p. 422.; IDEM. Brief an die Arbeiter Europas und Amerikas (Carta aos Trabalhadores da Europa e da América)(21 de Janeiro de 1919), in : ibidem, Vol. XXVIII, p. 446 e s. O assassinato de Luxemburg e Liebknecht, em 1919, pela Social-Democracia Alemã e seus aliados políticos e militares burgueses representou um evento de significado histórico-mundial não apenas porque, segundo Lenin,os melhores dirigentes da Internacional Comunista foram exterminados, senão ainda por ter-se revelado, definitivamente, o caráter de classe de um Estado Europeu desenvolvido, podendo-se dizer mesmo, sem exagero, o caráter de classe de um Estado desenvolvido em escala mundial. ... „Liberdade“ significa em uma das repúblicas mais livres e desenvolvidas do mundo, na República Alemã, a liberdade para assassinar impunemente os dirigentes presos do proletariado.“ Cf. IDEM. I. Kongreß der Kommunistischen Internationale (I Congresso da Internacional Comunista)(2 de Março de 1919), in : ibidem, Vol. XXVIII, p. 477. No mesmo sentido, vide IDEM. Über die Gründung der Komintern (Acerca da Fundação da Internacional Comunista) (6 de Março de 1919), in : ibidem, Vol. XVIII, p. 499.; IDEM. Erfolge und Schwierigkeiten der Sowjetmacht (Sucessos e Dificuldades do Poder Soviético) (17 de Abril de 1919), in : ibidem, Vol. XXIX, p. 56.; IDEM. Plenum des Gesamtrussischen Zentralrats der Gewerkschaften (Plenária do Conselho Central de Toda Rússia dos Sindicatos) (11 de Abril de 1919), in : ibidem, Vol. XXIX, p. 283.; IDEM. Über die Aufgaben der III. Internationale (Sobre as Tarefas da III Internacional)(14 de Julho de 1919), in : ibidem, Vol. XXIX, p. 501.; IDEM. Wie die Bougeoisie die Renegaten Ausnutzt (Como a Burguesia Usa os Renegados) (Setembro de 1919), in : ibidem, Vol. XXX, pp. 9 e s.; IDEM. Rede auf dem I. Gesamtrussischen Verbandstag der Bergarbeiter (Discurso na I Conferência de Toda a Rússia da Associação dos Mineiros) (5 de Abril de 1920), in : ibidem, Vol. XXX, pp. 490 e s.         

[34] Vide, mais detalhadamente, BIDET, JACQUES & TEXIER, JACQUES. Fin du Communisme ? Actualité du Marxisme ?, in : Actuel Marx Confrontation. Colloque International Sorbonne, 17-18-19 Mai 1990, organisé par la Revue Actuel Marx et l’Istituto Italiano per gli Studi Filosofici, sous la direction de Jacques Bidet et Jacques Texier, Paris : PUF, 1991, pp. 5 e s. Nessa publicação, cumpre examinar, mais pormenorizadamente, as afirmações revisionistas e desnaturadoras do marxismo, no sentido da direção dos franco-gramscianos, apresentadas, sobretudo,  por BENSAÏD, DANIEL. “Rentrons Dans La Rue” – Remettre Marx sur ses Pieds ?, in : ibidem, pp. 207 e s.; TEXIER, JACQUES. Ouverture du Colloque. Quelques Rendez-Vous Urgents avec la Chouette de Minerve, in : ibidem, pp. 5 e s. ; IDEM. Le Monde Moderne et l’Idée du Communisme, in : ibidem, pp. 43 e s.; BIDET, JACQUES. Capitalisme, Communisme, Marxisme, Socialisme, in : ibidem, pp. 17 e s.; LABICA, GEORGES. Pour une Alternative Démocratique, in: ibidem, pp. 241 e s.; SÈVE, LUCIEN. Fin du Communisme ?, in : ibidem, pp. 139 e s.; LOSURDO, DOMENICO. Marx et l’Historie du Totalitarisme, in : ibidem, pp. 75 e s.

[35] Vide, mais detalhadamente, BIDET, JACQUES. Les Paradigmes de la Démocratie, in : Actuel Marx Confrontation. Colloque du CNRS, 29-30 Mai 1990, organisé par la Revue Actuel Marx et l’Université de Paris X - Nanterre, sous la direction de Jacques Bidet, Paris : PUF, 1994, pp. 5 e s. Nessa publicação, cumpre comprovar, mais pormenorizadamente, as teses revisionistas e parasitárias do marxismo, no sentido da direção dos franco-gramscianos, apresentadas, sobretudo, por SAMARY, CATHERINE. La Démocratie par le Marché ?, in: ibidem, pp. 251.; TEXIER, JACQUES. Les Concepts de Liberté „Négative“ et de Liberté „Positive“ chez Isaiah Berlin, in : ibidem, pp. 149 e s.; BIDET, JACQUES. Présentation : Démocratie et Modernité. Jalons pour une Théorie Générale, in : ibidem, pp. 5 e 83 e s.; LABICA, GEORGES. Adresse Inaugurale, in : ibidem, pp. 13 e s.; TOSEL, ANDRÉ. L’Antinomie de la Démocratie, in : ibidem, pp. 137 e s.; ANDRÉANI, TONY. Démocratie Représentative, Démocratie Délégative, Démocratie Directe, in : ibidem, pp. 181 e s.; ROBELIN, JEAN. Les Nouvelles Figures Mondiales de la Politique, in : ibidem, pp. 225 e s.

[36] Vide, mais detalhadamente, BIDET, JACQUES & TEXIER, JACQUES. Le Nouveau Système du Monde, in: Actuel Marx Confrontation. Colloque International Sorbonne, 29 et 30 Mai 1992, organisé par la Revue Actuel Marx et l’Istituto Italiano per gli Studi Filosofici, sous la direction de Jacques Bidet et Jacques Texier, Paris : PUF, 1994,  pp. 5 e s. Nessa publicação, cumpre atestar, mais pormenorizadamente, as teses revisionistas e parasitárias do marxismo, no sentido da direção dos franco-gramscianos, apresentadas, sobretudo, por LÖWY, MICHAËL. Patries ou Planète ? La Montée des Nationalismes dans le Monde, in : ibidem, pp. 199 e s.; BIDET, JACQUES & TEXIER, JACQUES. Le Nouveau Système du Monde, in : ibidem, pp. 5 e s.; BALIBAR, ETIENNE. „Le Monde“ a-t-il changé, in: ibidem, pp. 125 e s.; LABICA, GEORGES. La Croix de la Double Transition, in: ibidem, pp. 37 e s.; LOSURDO, DOMENICO. Autoconscience, Fausse Conscience, Autocritique de l’Occident, in : ibidem, pp. 155 e s.

[37] Cf. ESPACES MARX. Explorer, Confronter, Innover : Historique, in : Espaces Marx, Paris, http:/ /www.internatif.org /EspMarx/adm/index.html.

[38] Cf. IDEM. ibidem.

[39] Cf. IDEM. Explorer, Confronter, Innover : Les Membres du Comité de Direction, in : Espaces Marx, Paris, http:/ /www.internatif.org /EspMarx/adm/index.html. ibidem.

[40] Cf. LAZARD, FRANCETTE.  Un Monde à Gagner, in : Le Manifeste Communiste 150 Ans Après : Quelle Alternative au Capitalisme ? Quelle Émancipation Humaine ?, Paris, http:// www. Internatif.org /EspMarx/Marx_98/index.html

[41] Acerca do tema, vide ESPACES MARX. Explorer, Confronter, Innover : Bulletin Réseau International, in: Espaces Marx, Paris, http://www. internatif.org /EspMarx/Reseau/index2.html

[42] Cf. IDEM. Pour une Construction Citoyenne du Monde. Un An Après Seattle, Les Organisateurs du Colloque 2000, Collectif de Préparation du Colloque 2000, Paris, http://www. internatif.org /EspMarx/Reseau/index2.html

[43] Cf. ESPACES MARX. Rencontre International à Paris : „Pour une Construction Citoyenne du Monde. Un An Après Seattle“, in : Actuel Marx. Revue Internationale : PUF-CNRS, Paris, http:// www. u-paris10.fr/ActuelMarx/indexa.htm.